Vestido de noiva: nove pontos para a modéstia cristã

Por Melissa Bergonso

O vestido de noiva, para uma mulher, é algo memorável, e por isto ele deve ser bem escolhido. Infelizmente, os modelos disponibilizados nas lojas, ou mesmo em catálogos de modelos, não são condizentes com a modéstia cristã, e por isto muitas mulheres católicas têm dificuldades para encontrar um vestido que seja digno do santo sacramento que vão receber. Pensando nisto, e levando também em conta as dificuldades que eu tive, e algumas escolhas que fiz que não foram as melhores, resolvi escrever este artigo, listando e comentando nove pontos importantes para a modéstia cristã num vestido de noiva, que também servem para vestidos em geral.

Como deve ser o vestido de noiva de uma mulher cristã?

Essa é uma preocupação e uma pergunta muito importante para ser feita pela noiva católica. Tendo consciência do decoro que um cristão deve ter diante da santa presença de Deus, a noiva católica deve buscar que seu vestido de casamento tenha a dignidade, a formosura e o recato que se espera que a veste de uma mulher católica tenha. Mas o que faz com que um vestido, especialmente um vestido de noiva, seja digno, formoso e pudico?

Vamos, primeiramente, ver algumas diretrizes básicas sobre a modéstia no vestir. Citarei as diretrizes dadas pelo Cardeal Donato Sbaretti, que foi Cardeal Vigário do Papa Pio XI, e também as diretrizes das Normas Marianas[1], organizadas pelo Padre Bernard A. Kunkel para o movimento que ele próprio fundou, chamado “Cruzada Mariana”. Logo em seguida, farei alguns comentários acerca delas através de alguns pontos que listei.

Diretrizes básicas para a modéstia cristã

Vamos partir das diretrizes básicas dadas pelo Cardeal Sbaretti, em 1930:

Um vestido não pode ser chamado decente se é cortado na largura de mais de dois dedos sob o poço da garganta, que não cubra os braços pelo menos até os cotovelos, e mal chegue até um pouco abaixo dos joelhos. Além disso, os vestidos de materiais transparentes são impróprios.[2]

As diretrizes das Normas Marianas, que têm como base as diretrizes do Cardeal Sbaretti e pronunciamentos papais acerca da modéstia cristã no vestir, dizem o seguinte:

Ser Mariana é ser modesta sem concessão, “como Maria”, Mãe de Cristo.[3]

As vestes Marianas têm mangas até pelo menos os cotovelos, e as saias devem chegar abaixo dos joelhos.[4]

As vestes Marianas devem cobrir completamente o busto, peito, ombros e costas, exceto pela abertura do decote, desde que esta abertura não exceda os cinco centímetros abaixo da base do pescoço, tanto na frente quanto nas costas, e outros cinco centímetros correspondentes na direção dos ombros.[5]

As vestes Marianas não admitem como modestos o uso de tecidos transparentes como rendas, tules, alguns tecidos de malha, organdi, nylon, etc., a menos que haja um forro adequado por baixo. Entretanto, seu uso moderado como ornamentação é aceitável.[6]

As vestes Marianas evitam o uso impróprio de tecidos cor de pele.[7]

As vestes Marianas escondem, ao invés de revelarem as formas da pessoa que os usa; eles não enfatizam, indevidamente, as partes do corpo.[8]

As vestes Marianas proporcionam cobertura completa mesmo depois de se tirar o casaco, capa ou estola.[9]

Uma pequena nota: “vestes Marianas” devem ser entendidas como vestuário feminino em geral, ou seja, vestidos, blusas, camisas e saias.

Antes de seguirmos com o texto, vamos observar este desenho esquemático de um corpo feminino. Eu o desenhei para que algumas definições fiquem claras logo abaixo, especialmente da altura do decote.

Desenho esquemático do corpo feminino. Temos nele: i) a base do pescoço, ii) o poço da garganta, que é aquele “buraquinho” que possuímos abaixo da base do pescoço, iii) o colo, que fica um pouco mais abaixo e está localizado entre o pescoço e os seios, iv) os cotovelos e v) os joelhos.

Desenho esquemático do corpo feminino. Temos nele: i) a base do pescoço, ii) o poço da garganta, que é aquele “buraquinho” que possuímos abaixo da base do pescoço, iii) o colo, que fica um pouco mais abaixo e está localizado entre o pescoço e os seios, iv) os cotovelos e v) os joelhos.

Nove pontos para a modéstia cristã

Analisando as recomendações do Cardeal Sbaretti e das Normas Marianas, eu listei nove pontos importantes que devem ser considerados para a modéstia cristã num vestido de noiva (e em vestidos em geral):

#1. Altura do decote

O Cardeal Sbaretti dá uma medida e as Normas Marianas dão outra, mas ambas, no final das contas, dão a mesma altura, já que o poço da garganta está abaixo da base do pescoço. Assim, dois dedos sob o poço da garganta dá, aproximadamente, uns três centímetros. E cinco centímetros da base do pescoço dá também a mesma distância final. Ou seja, descendo 5cm da base do pescoço ou 3cm do poço da garganta, atinge-se o mesmo ponto final de distância para um decote adequado, na frente, nas costas e em direção aos ombros.

#2. Nudez do colo/busto

O colo deve estar coberto sempre. Para quem não sabe, o colo é aquela parte entre o pescoço e os seios, uma região muito comumente exposta em decotes, blusas/vestidos de alças e tomara-que-caia. Essa parte do corpo é exposta com o intuito de deixar a mulher mais sexy, e dependendo do decote, até provocante, pois chama a atenção de quem olha, conduzindo o olhar diretamente para os seios, especialmente quando o decote é em V.

#3. Nudez dos braços

Os braços são considerados partes “menos honestas”[10] do corpo, e por isso devem permanecer cobertos, pois eles podem conduzir o olhar para partes que não devem ficar à mostra, especialmente se a cava do vestido for grande. Além do mais, braços cobertos são mais elegantes.

#4. Nudez dos ombros

Se os braços devem permanecer cobertos, tanto mais os ombros o devem também, já que eles se encontram entre o braço e o tronco. Quando há a combinação de braços nus com ombros nus e colo nu, há uma superexposição da parte superior do corpo, o que provoca uma nudez parcial, e isto pode, com muita facilidade, produzir no sexo oposto pensamentos e/ou desejos desonestos.

#5. Nudez das costas

Assim como a combinação de nudez do colo + nudez dos ombros, costas de fora também possuem o mesmo efeito da nudez parcial, justamente para provocar os olhares. É bastante constrangedor estar, por exemplo, na igreja (ou em qualquer outro lugar) e ver, no banco da frente, alguém com uma frente única ou com um tomara-que-caia, pois parece que a pessoa está pelada.

#6. Comprimento

Aqui entra outro ponto importante. O comprimento de vestidos modestos deve ser de, no mínimo, cerca de 20cm abaixo do joelho, como recomendava Pe. Pio[11], para que os joelhos fiquem sempre cobertos em qualquer posição, especialmente quando a mulher se senta. Claro que em um vestido de noiva tradicional, longo, isto nem é motivo de preocupação, mas se alguma noiva for se casar de dia numa cerimônia mais informal e quiser usar um vestido mais simples e de comprimento menor, é bom se atentar para isto também. No artigo Roupas Femininas: Modéstia e Comprimento, há algumas explicações a mais que podem ajudá-la a compreender melhor este ponto e alguns outros.

#7. Justeza (se é justo ou não)

Um vestido modesto jamais deve ser justo, colado e/ou revelador. Como está dito nas Normas Marianas, ele não acentua as formas do corpo, apenas as disfarça.

#8. Transparência

Um vestido modesto não deve ser transparente. Você até pode fazer uso de um tecido fino e transparente, como chiffon, renda, entre outros, porém deve sempre haver um forro por baixo das peças com transparência. Isso não desembeleza o vestido de modo algum, muito pelo contrário, pois você pode tirar partido de tons diferentes para o forro para fazer contraste com o tecido de cima, como, por exemplo, para destacar o desenho de uma renda.

#9 Cores e Tons Nude

A cor nude é a cor que imita os tons da pele. Como as pessoas possuem tons de pele diferentes, a cor nude, para cada uma, será de uma tonalidade diferente. O problema dos tons nude é que eles simulam a nudez com o tecido sobre o corpo, o que é completamente inconveniente e inadequado numa veste cristã. Portanto, esse tipo de cor não deve ser usado por uma mulher cristã, nem em vestidos de noiva, nem em vestidos ou peças de roupas em geral.

Depois de analisarmos cada um destes nove pontos, podemos dizer que um vestido é digno, formoso e pudico quando ele obedece as restrições desses pontos acima, porque ele não vai expor o corpo da mulher, ao contrário, vai embelezá-lo do modo apropriado a uma mulher cristã. O vestido da noiva católica deve ser como um estandarte de pureza e recato; visível, reconhecível e irrepreensível.

É importante salientar que a modéstia cristã no vestir não é, nem poderia ser, uma questão de “obsessão por regras” nem de “paranoia da fita métrica”, mas é antes de tudo uma norma de caridade para com o próximo.

Um modelo eternizado e inspirador

Um dos vestidos que é fonte de inspiração e que ficou “eternizado” entre as noivas foi o vestido de Grace Kelly. É importante ressaltar que o vestido de noiva de Grace Kelly não é o ideal de modéstia cristã, pois a renda que recobre o corpo do vestido é transparente, e deixa transparecer o desenho do corpo do vestido (que é um recorte tomara-que-caia) e a pele dos ombros, colo e braços. Num primeiro momento, com toda a imodéstia à qual estamos habituados a ver hoje em dia, esse vestido parece “perfeito”, mas não é. Contudo, embora esse vestido não seja o ideal de modéstia cristã, ele pode servir como fonte de inspiração, tomando os devidos cuidados com a transparência da renda, obviamente, utilizando um forro fino por baixo para que a pele não fique à mostra.

Vestido de noiva de Grace KellyVestido de noiva de Grace Kelly

Perguntas que uma noiva deve se fazer ao escolher seu vestido de noiva

Sei que é bastante difícil encontrar vestidos modestos nas lojas de aluguel e mesmo em catálogos de modelos. Eu também tive dificuldade, e acredito que as moças que procuram por vestidos modestos também tenham. Em todo caso, diante das dúvidas e das dificuldades, há algumas perguntas que a noiva católica deveria se fazer antes de escolher seu modelo de vestido:

  • A quem eu quero agradar? a mim mesma? às outras pessoas? ou à Deus?…
  • Será que Nossa Senhora usaria este vestido?…
  • Será que meu Anjo da Guarda aprovaria este vestido? ou esconderia sua face de mim?…
  • Será que este vestido vai deixar transparecer minha alma? ou vai atrair olhares de uma forma imprópria?…

Mais perguntas ainda poderiam ser feitas, mas essas já dão um bom auxílio no momento da escolha do vestido de noiva. 

Algumas dicas

Alugando ou mandando fazer seu vestido de noiva, é necessário saber exatamente o que procurar, o que pedir e o que não aceitar. Então:

  • Caso você for alugar e o vestido for tomara-que-caia ou tiver alças, faça um bolero para usar por cima que cubra o colo, os ombros, as costas e os braços.
  • Se o bolero for feito de renda, peça para fazerem com um forro de tecido fino para que ele não fique transparente. Caso esteja no verão, pode ser algum tipo de cambraia. Se for inverno, o forro pode ser de cetim, seda ou outro tecido que lhe agrade e que seja macio.
  • Se quiser realçar o desenho da renda do vestido ou do bolero, use um forro de um tom diferente da renda. Mesmo o branco possui diferentes tons. Escolha um que contraste!
  • E o mais importante: não se constranja se alguém disser a você que você está sendo “radical” ou “exagerada”. Mais vale agradar a Deus do que agradar as pessoas à nossa volta!

Considerações finais

Os maiores problemas nos vestidos de noiva são os decotes, a falta de mangas, o conjunto braços-ombros-colo-costas nus, e as transparências, então, muito cuidado ao escolher seu vestido. Fique atenta aos detalhes, e não aceite qualquer coisa só porque está na moda ou porque as pessoas acham “bonito”. Na pior das hipóteses, há sempre alguma solução que pode resolver algum problema de imodéstia no vestido, basta ter boa vontade e criatividade.

Espero este post possa ajudar as noivas cristãs a escolherem bem seu vestido de noiva, e a se casarem com a modéstia e a elegância que lhe são requeridas!

“Vesti com modéstia e muito pudor. Olhai como veste a Mãe do Senhor!”

Salve Maria Imaculada!!


[1] As Normas Marianas estão contidas no livro Marylike Modesty Handbook of the Purity Crusade of Mary Immaculate (Guia Mariano de Modéstia da Cruzada pela Pureza de Maria Imaculada). A Marylike Crusade (Cruzada Mariana) foi fundada por Padre Bernard A. Kunkel, em prol da castidade e modéstia por meio de imitação da Santíssima Virgem. O Papa Pio XII deu a bênção papal ao apostolado do Pe. Kunkel em duas diferentes ocasiões, e seus estatutos foram aprovados pela autoridade eclesiástica vaticana.

[2] Declaração emitida no dia da Festividade da Sagrada Família, pelo Cardeal Donato Sbaretti, Prefeito da Congregação do Concílio, em 12 de janeiro de 1930.

[3] The Marylike Standards For Modesty In Dress (Padrões Marianos para a Modéstia no Vestir). Ponto 1, tradução nossa.

[4] Idem. Ponto 2, tradução nossa. O texto das Normas Marianas faz uma observação, dizendo que “devido a impossíveis condições de mercado, as mangas de comprimento de 1/4 são toleradas temporariamente, com Aprovação Eclesiástica, até que a feminilidade Cristã se volte de novo para Maria, como modelo de modéstia no vestuário” (tradução nossa). Embora mangas de comprimento de 1/4 sejam toleradas enquanto as mulheres católicas não se voltam a Nossa Senhora como modelo de pudor e modéstia, devemos fazer o máximo para nos adaptarmos aos comprimentos de mangas maiores, pelo menos até os cotovelos.

[5] Ibidem. Ponto 3, tradução nossa.

[6] Ibidem. Ponto 4, tradução nossa. Ornamentação significa enfeite, decoração. Não deve ser confundida com uma parte da roupa que mostre pele ou pedaços do corpo que deveriam estar velados. Roupas de tecidos transparentes, rendados e afins devem sempre ter um forro por baixo, de tecido opaco. Se houver ornamentação sobre a peça de roupa, esta deve apenas acontecer como um enfeite, sem mostrar partes do corpo que devem permanecer cobertas.

[7] Ibidem. Ponto 5, tradução nossa. Tecidos “cor de pele” (ou também ditos “cor de carne”) são tecidos cujas cores são chamadas nude, ou seja, são cores que imitam o tom da pele. Por imitarem o tom da pele, eles simulam a nudez com a roupa.

[8] Ibidem. Ponto 6, tradução nossa.

[9] Ibidem. Ponto 7, tradução nossa.

[10] Em Teologia Moral, são chamadas partes desonestas as partes do corpo que provocam pensamentos e desejos impuros. As partes menos honestas são aquelas que podem conduzir os olhos para as partes desonestas. As partes honestas são aquelas partes que, ordinariamente, não são causa de maus pensamentos e/ou maus desejos.

Segundo Jone, “Em razão do influxo vário sobre a excitabilidade venérea, as partes do corpo dividem-se em honestas (rosto, mãos, pés), menos honestas (peito, costas, braços, coxas), inonestas [ou desonestas] (as partes sexuais e as partes próximas a elas).” (JONE, H. Compêndio da Moral Católica. Porto Alegre: A Nação, 1943, p.183-184).

De acordo com Del Greco, “As partes desonestas do corpo são os órgãos genitais e as regiões vizinhas; as partes menos honestas são os seios, os braços e os flancos; as partes honestas são o rosto, as mãos e os pés.” (DEL GRECO, T. T. Teologia Moral: compêndio de moral católica para o clero em geral e leigos. São Paulo: Paulinas, 1959, p.262).

[11] A medida de “20cm abaixo do joelho” é uma medida de segurança para a modéstia das vestes femininas, e pode variar de mulher para mulher, para mais ou para menos, dependendo de sua estatura. Talvez uma mulher muito alta precise de alguns centímetros a mais, outra considerada mignon pode precisar de alguns a menos. O importante é compreender que essa medida de “20cm” – que dá aproximadamente no meio da canela em uma mulher de estatura mediana – é uma medida que deve ser considerada para cobrir os joelhos em qualquer posição que a mulher fique, especialmente na posição sentada.


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