Maria e a Ressurreição de Jesus

Por D. Ildefonso Rodriguez Villar

1º. Sepulcro Glorioso

Pelo pecado entrou a morte no mundo…; todos os homens têm de morrer porque são pecadores. Só Jesus e Maria estiveram isentos desta lei e contudo quis Deus que passassem pela humilhação da morte…, mas não podiam ficar no sepulcro…, nem podia ali corromper-se uma carne tão sem mancha.

Além disso, Cristo morreu mas não foi vencido pela morte… antes pelo contrário, a morte converteu-se em princípio de vida… e de vida eterna para que todos os que morressem em Cristo, não morressem deveras senão que passassem à vida da imortalidade. Por isso o seu triunfo sobre a morte havia de manifestar-se necessariamente com a ressurreição gloriosa do seu corpo. Ele que predissera tantas vezes a sua morte… outras tantas predisse a sua ressurreição. Tinha que demonstrar a sua divindade e pôr o selo à sua pregação com esse domínio sobre a vida e a morte, próprio e exclusivo de Deus.

Todas as grandezas humanas vão a parar a um sepulcro…: por maior que seja o poder de um homem, um dia cairá sobre ele a loisa de um sepulcro que diga: «aqui jaz»… «aqui está». Mas há um sepulcro glorioso que triunfou da morte e onde se leem estas palavras: «Ressuscitou, não está aqui». Que magnífica a glória de Cristo na sua Ressurreição!… Que triunfo o seu sem precedentes e sem igual!… Só Ele o podia ter. Mas esta glória de Jesus tem que ser também glória de Maria. Nada de quanto a ele se refere é alheio a sua Mãe. Esteve associada a ele no Calvário…; as dores do filho foram dores da Mãe… Justo era que os seus gozos, triunfos… e alegrias fossem também para a Santíssima Virgem. Como deve consolar-nos o triunfo da Ressurreição de Jesus Cristo!… Se não tivesse ressuscitado a nossa fé seria inútil…; os inimigos teriam triunfado definitivamente dele…, da sua vida e da sua obra. Mas com a sua Ressurreição dá-nos o argumento mais firme na nossa fé…, a razão mais sólida da nossa esperança.

Também nós havemos de morrer…, também nós havemos de ressuscitar. Mas, como? Será a nossa morte santa…, o nosso sepulcro glorioso…, a nossa ressurreição triunfante?… A estas perguntas só tu podes e deves responder…, de ti somente depende. Pede a Jesus e a Maria que seja assim…, diz-lhe que assim o esperas dos seus méritos…, que queres agora associar-te às suas dores, para participar um dia dos seus triunfos.

2º. Aparição de Jesus à sua Mãe

Cristo Ressuscitado aparece à Virgem (pintura de Guercino, 1629)

Cristo Ressuscitado aparece à Virgem (pintura de Guercino, 1629)

Não é de fé nem consta do Evangelho, mas é certo. A natureza e a graça exigem este encontro entre a Mãe e o Filho. Não podemos duvidar de que a Santíssima Virgem assim o esperava com uma fé viva e inquebrantável. Os Apóstolos chegaram a duvidar da Ressurreição… Maria esperava com uma certeza infalível o cumprimento das palavras de seu Filho. Por isso ela não foi ao sepulcro…, sabia que era inútil e que ali não estava Jesus.

Reflete agora na santa impaciência, que, particularmente ao começar o terceiro dia, invadiria o coração da Santíssima Virgem. Os minutos parecer-lhe-iam eternidades…; o seu coração de Mãe dizia-lhe que seu Filho já se aproximava, e o coração de uma mãe nunca se engana em coisas de seus filhos. Lembra-te da mãe de Tobias que saía todos os dias ao caminho para ver se seu filho voltava. É necessário conhecer o coração de uma mãe e sobretudo o daquela Mãe para compreender o desejo e a impaciência de Nossa Senhora por ver o Filho ressuscitado. Não será doce para a nossa devoção pensar que também agora com os seus desejos veementes…, com as suas fervorosas orações…, fez com que se apressasse a hora da Ressurreição, como acontecera com a Incarnação… e nas bodas de Caná, ao adiantar o tempo da manifestação pública de Jesus?

Finalmente chegou o instante ditoso que não é possível imaginar. Contempla a Virgem Santíssima e ainda na sua soledade…, sumida no oceano das tristezas…. Os seus olhos inchados e vermelhos pelo pranto já não têm lágrimas que chorar. E, de repente, uma explosão de Luz divina…, um corpo gloriosíssimo com vestidos mais brancos do que a neve… e sobretudo uma voz dulcíssima…, muito conhecida, que chama e repete mil vezes: Mãe!!! Que língua poderá explicar estas efusões entre Mãe e Filho naqueles instantes?… Deixa que o teu coração as sinta, se perca e se abisme neste mar de felicidade…, de glória verdadeira… Que bom é Jesus para os que o amam! Um pouco de padecer e sofrer com Ele e logo a seguir quanto gozo e satisfação sem fim! Compara com estes gozos e alegrias as que o mundo oferece e verás se merecem sequer este nome as mentiras que ele nos dá.

Aplica também aqui a regra do amor e da dor: qual o amor, assim a dor…, e qual a dor, assim a alegria depois. Como seria a alegria da Santíssima Virgem que assim amava a seu Filho?… Se sofreu tanto na sua morte, qual não será a sua alegria ao vê-lo agora glorioso…, triunfante…, ressuscitado para nunca mais morrer? Agora de novo iria Maria percorrendo as feridas do seu corpo…, e adorá-las-ia com a felicidade que sentiria ao vê-las tão gloriosas. Recorre-as também tu com Ela e uma vez mais demora-te naquele lado…, naquele coração… Que forno!… Que vulcão de fogo!?… Entra bem dentro e ali abrasa-te…, consome-te em santo amor a Deus.

3º. Efeitos desta aparição

A) Uma alegria tão grande e tão viva que foi milagre que a Virgem Santíssima não tivesse morrido. Uma alegria espiritual e divina, da qual nunca se saciava a alma de Maria, semelhante à do céu que nunca chega a cansar.

B) Uma compenetração mais íntima e profunda que Deus lhe concedeu, com o seu divino Filho, como prêmio da sua generosidade e fidelidade no sacrifício…; de tal sorte que sem chegar a converter-se em Deus foi a participação maior que da divindade pode dar-se a uma criatura.

C) Um conhecimento ainda mais claro…, uma contemplação ainda mais sublime do que era seu Filho e da sua obra grandiosa da Redenção. Sem dúvida Jesus lhe revelou então, altíssimos segredos…, os seus planos e projetos…, a sua Ascensão aos céus daí a alguns dias…, a fundação da sua Igreja e a parte que Ela devia ter em tal obra…: enfim, grandes segredos do céu e as muitas almas que iam entrar nele.

Também tu te hás de alegrar com este grande triunfo de Jesus… e com esta felicidade de tua Mãe. Repete-lhe a felicitação da Igreja: Regina coeli, laetare, alleluia… Pede-lhe que te dê uma partezinha da sua felicidade, se não agora, pelo menos algum dia no céu…, e por fim, não te esqueças, que, segundo S. Paulo, da Ressurreição de Cristo, havemos de tirar grande desprezo e fastio das coisas da terra que não podem nem merecem encher o nosso coração… Busquemos as coisas do alto…, suspiremos pela outra vida, vivendo agora desapegados desta…. O espírito de fé…, a vida de fé… sobrenaturalize os nossos atos todos, para dar-lhes um valor que por si mesmos nunca teriam… e que deste modo chegarão a constituir a glória da nossa coroa no céu.


D. Ildefonso Rodriguez VILLAR. Pontos de Meditação sobre a Vida de Nossa Senhora. Porto, (s. e.), 1946, p.344-349.


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