Apresentação de Maria: vocação, consagração e vida de fervor

Por D. Ildefonso Rodriguez Villar

Terno e delicado é este mistério da vida da Santíssima Virgem, como sumamente prático pelos grandes ensinamentos que encerra para as nossas almas.

Nossa Senhora adentrando no templo

1º. Prontidão em seguir a vocação de Deus

Eis um dos mais admiráveis ensinamentos desta passagem da vida da Santíssima Virgem. Contempla a Virgem Santíssima, criancinha, na idade de três anos, a desprender-se dos braços de seus pais, a subir correndo os degraus do Templo, sem voltar sequer a vista para trás e a oferecer-se ao serviço de Deus no Santuário. Que cena encantadora! Aos três anos! Aprofunda bem isto… Que pressa tem a Santíssima Virgem em se consagrar ao Senhor! Por um milagre excepcional, Maria, nessa idade, tinha todo o uso da razão, e com essa razão, deliberadamente, dando-se conta do que fazia, aos três anos! vai ao Templo. Não tinha perigos em casa, que era mansão de santos. Não atende à sua tenra idade em que são ainda tão necessários os cuidados de um pai e sobretudo de uma mãe. Não pensa na dor que vai causar a seus pais… nem a preocupa o novo gênero de vida que desconhece. Tudo isso são razões da prudência humana… Ela ouviu a voz de Deus e imediatamente corre a segui-la, quanto antes melhor! Tudo lhe parece demasiado tarde e, por isso, sobe correndo os degraus do santuário. Que lição de fervor nos dá esta menina!

Compara-te com Ela e vê se assim serves tu o Senhor. Que fazes com as inspirações e chamamentos de Deus?… Segues com prontidão esses caminhos amorosos?… Lanças-te assim às cegas, sem pensar em nada, confiadamente, sem preocupar-te com nada… como Maria nos braços do Senhor e deixando a Ele o cuidado de todas as coisas? Quando chegaremos a este desprendimento de tudo… até de nós mesmos… do nosso modo de ver as coisas…, do nosso próprio parecer…, para proceder só como Deus quer!…

2º. A consagração de Maria

Penetra no Templo, oferece-se ao Senhor e a Ele se consagra para ser toda sua, e para sempre. Como faria a Santíssima Virgem esta consagração e como se agradaria d’Ela o Senhor! Recorda as vezes que tu também tens dito alguma coisa de semelhante a Deus… Quantas vezes te tens consagrado a Ele!… e também lhe dizes que querias que a tua alma fosse toda sua e para sempre. Porém, que diferença entre as tuas palavras e as de Maria! As tuas terão causado ao Senhor mais de uma vez grande pena, ao ver quão mal cumpririas o teu oferecimento. Ao contrário, que honra para Deus não derivaria deste oferecimento tão perfeito como foi o da Santíssima Virgem, total e perpétuo!

Considera como encanta a Maria este pensamento: ser de Deus!… Já o era desde o primeiro instante de sua conceição… Nunca deixou, nem havia jamais de deixar de o ser…, bem o sabia Ela, pois não ignorava a graça que tinha recebido do Senhor… e não obstante, ainda quer, se é possível, ter mais união com Deus…, ser mais de Deus. Que exemplo para ti! Tu que tens mais necessidades do que Ela desta união (porque tens mais miséria) quão pouco a estimas! Quão pouco a procuras praticamente! Quão pouco trabalhas por adquiri-la!

Ser de Deus!!! Seja este o teu único pensamento, o teu único anelo. Pede-lho hoje, deste modo a Maria.

3º. A vida de fervor

Daqui deduzirás que o Senhor não se contenta com que o sirvas de qualquer modo, senão como a Santíssima Virgem, com fervor; ao fervor opõe-se a tibieza, que é o estado em que insensivelmente se cai, quando se não fazem esforços na vida espiritual. Com fazer as coisas só rotineiramente, sem espírito de abnegação, de vencimento, etc…, do descuido, do tédio passaremos facilmente para a tibieza. Que enjoo e que repugnância causa a Deus a tibieza! Diz que ao tíbio o lançará de Si como se lança com náuseas um alimento que não se tolera. Chegar a causar náuseas a Jesus! Provocar-Lhe repugnância! É para temer! Que santo temor deve causar-te este pensamento! Estás perto deste estado?… Vigias bem o teu procedimento para te encontrares longe dele?

Considera bem o exemplo de Maria. Em tudo parece proceder sob a impressão desse temor. Como se houvesse para Ela perigo, procede com energia, com decisão, com prontidão, com fervor. Se Ela pois sem ter nenhum perigo, assim procedeu, qual deve ser o nosso procedimento? Não é tempo de dormir. Basta de tantas graças de Deus perdidas como se perdem e inutilizam pela maldita tibieza.

Guerra pois à tibieza, à frouxidão, à rotina, para que chegue deveras a tua alma a ser toda de Deus à imitação da tua querida Mãe.


D. Ildefonso Rodriguez VILLAR. Pontos de Meditação sobre a Vida de Nossa Senhora. Porto, (s. e.), 1946, p.70-73.


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