A Anunciação de Maria – A sua Festa

Por D. Ildefonso Rodriguez Villar

Tudo quanto este mistério da Santíssima Virgem tem de incomparável e grandioso, se realiza pela embaixada de um Anjo; será pois  muito proveitoso comparar esta embaixada com as que o Senhor nos envia a nós tão frequentemente.

1º. A Embaixada

Anunciação do Anjo a Nossa Senhora

Deus envia o Anjo em forma visível para anunciar à Santíssima Virgem a sua elevação à dignidade de Mãe de Deus. Ao que parece, o Anjo apareceu em forma humana, como um jovem formoso e cercado de resplendores celestiais. Assim convinha para o fim tão excelso a que ia destinado…, a tratar do assunto mais importante que jamais se tratou entre o Céu e a terra, entre Deus e os homens.

Deus quer também tratar muitas vezes conosco alguma coisa que se relaciona com a sua glória e com o bem das nossas almas, e trata-o por meio dos seus anjos, ainda que em forma invisível. Quantas vezes será o nosso fiel Anjo da Guarda, o que em nome de Deus nos inspira alguma coisa de que não fazemos caso! se o víssemos visivelmente não procederíamos assim! Por que não o vemos com a fé?…

Com olhos de fé vemos também esses que representando para nós a Deus nos falam também…, como são os superiores…, diretores espirituais…, pregadores…, as boas leituras e os bons exemplos…, as próprias humilhações e tribulações…; tudo isso que outra coisa são para ti senão como que embaixadas que o Senhor te envia para comunicar contigo?… Como as recebes? Examina e medita na maneira como Maria recebeu o Anjo e compara com o teu proceder.

2º. A saudação do Anjo

Na saudação do Anjo considera não só os louvores que dirige a Maria, senão também as verdades gloriosas e magníficas que lhe lembra. Diz-lhe que é cheia de graça e que Deus está com Ela,e finalmente que é bendita entre todas as mulheres. Vê como deste modo o Anjo a quer preparar para que, pela correspondência a esses favores do Senhor, dê o seu consentimento à sua embaixada e não ponha obstáculos ao plano de Deus.

Assim também a nós nos fala o Senhor. Muitas vezes e muitas maneiras, especialmente com as suas luzes interiores, nos fala ao coração e nos faz sentir as graças que d’Ele temos recebido…, a obrigação que temos de corresponder a elas e de trabalhar com elas, e nos alenta com a esperança dos frutos riquíssimos de graças e de glória que com esta correspondência podemos conseguir.

Mas, que fazemos nós? Como recebemos estas inspirações do Céu? E se alguma vez conseguimos afervorar-nos e trabalhar com mais entusiasmo na nossa santificação, não é verdade que outras não fazemos nada, perdemos o tempo porque praticamente desperdiçamos essas ilustrações e chamamentos do Senhor?

3º. Como Maria a recebe

Vê como a Santíssima Virgem assim preparada pelo Anjo ouve claramente a mensagem de Deus no ponto mais principal: «Serás a Mãe de Deus porque darás à luz o Santo dos Santos». Maria escuta e longe de dar logo o seu consentimento cheia de vaidade, com grande prudência e humildade, examina essas palavras e considera como podem estar conformes com a vontade do Senhor manifestada antes no voto da sua virgindade.

Aprende essa prudência da Santíssima Virgem. Vê com que facilidade cremos que é um Anjo e que é coisa de Deus, quando se nos oferecem coisas que redundam em nosso proveito, em nossa glória, e logo vamos atrás do que nos agrada…, e talvez não seja o Anjo da luz, senão o das trevas…, talvez não seja uma inspiração, senão uma tentação.

Examina, medita e consulta, para que assim acertes em tudo e saibas imitar esta prudência da Santíssima Virgem.

4º. O consentimento

Contempla agora Maria dando o seu consentimento, uma vez convencida de que é coisa de Deus.

Vê bem como procede o Senhor. Ele podia fazer tudo isto sem contar com a vontade da Santíssima Virgem; e no entanto não quer forçar a sua liberdade.

Deste modo procede conosco. Deus não quer corações forçados, nem amor à força. Quer almas que livre, voluntária e generosamente se entreguem a Ele. Para te criar não precisou de ti, porém para salvar-te e santificar-te, é necessário que tu dês voluntariamente o teu consentimento. Não te fará santo violentamente e contra a tua vontade. Ele te dará a sua graça e a sua ajuda, porém…, de ti depende o santificares-te com ela ou o desperdiçá-la e rejeitá-la.

Portanto de ti e só de ti (convence-te disto) depende que te santifiques ou não. Não te basta este pensamento para uma meditação muito proveitosa, especialmente ao comparar-te com Maria, que agora e sempre deu o seu livre e generoso consentimento à obra de Deus?

Coragem e generosidade! Nunca, pois, vacilar perante as inspirações e embaixadas que o Senhor nos envia. Não determo-nos perante a voz de Deus, senão para examiná-la com prudência e para não a confundir com as emboscadas do inimigo, porém… nunca determo-nos por moleza e cobardia, por amor próprio e soberba…, por medo da humilhação e do sacrifício. Maria não atende tanto à coroa de ouro que lhe oferece o Anjo, como à coroa de espinhos. Sabe que o ser Mãe de Deus significa ter o seu coração sempre atravessado com uma espada de dor…, e com coragem e valentia se decide a aceitá-la: «faça-se em mim segundo a tua palavra».

Pois bem, se queres que a tua alma seja deveras filha de Deus e esposa de Cristo e se aspiras à coroa do Céu, hás de amar agora o sacrifício, a mortificação, a crucificação da carne e das tuas paixões. Perante o exemplo de Maria, Rainha dos mártires, não duvides em seres também mártir de amor…, aceita e abraça com generosidade esse sacrifício por Maria e com Maria.

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D. Ildefonso Rodriguez VILLAR. Pontos de Meditação sobre a Vida de Nossa Senhora. Porto, (s. e.), 1946, p.122-126.


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