As perfeições relativas à alma de Maria: § 1 – A imunidade de imperfeições: A imunidade do pecado original

Por Padre Gabriel Roschini

A parte principal do composto humano é a alma. Comecemos, pois, nossas instruções pela alma.

Art. I: A IMUNIDADE DE IMPERFEIÇÕES

A alma de Maria foi imune de qualquer imperfeição e cheia de todas as perfeições. Foi imune de qualquer imperfeição e, assim, daquela tríplice imperfeição que todos nós possuímos, a saber: o pecado original, o foco ou chama da concupiscência e o pecado atual. Estava ornada de todas as perfeições e, assim, cheia 1) de graça, 2) das virtudes, 3) dos dons do Espírito Santo, 4) das beatitudes, 5) dos frutos do Espírito Santo e 6) de carismas ou graças grátis datas.

1. A IMUNIDADE DO PECADO ORIGINAL

A primeira imperfeição que contraem, inevitavelmente, as almas de todos os míseros filhos de Adão é o pecado original. Somente Maria foi livre dele. Ela é a Imaculada Conceição. Vejamos, pois, brevemente 1) o significado, 2) as provas desse insigne privilégio.

I. O SIGNIFICADO DO PRIVILÉGIO

Este insigne privilégio concedido por Deus à sua Mãe Santíssima compreende quatro coisas: a elevação do homem à ordem sobrenatural mediante a graça santificante, a perda dessa graça pelo pecado cometido pelos nossos primeiros pais, a transmissão deste pecado, chamado original, a todos os seus descendentes por via da geração natural; a exceção feita por Deus para sua Mãe Santíssima, em vista justamente da missão singularíssima a que a tinha predestinado. Exponhamos brevemente esses quatro pontos fundamentais.
A Imaculada Conceição supõe, antes de tudo, a elevação do gênero humano, na pessoa de nossos primeiros pais, à ordem sobrenatural, mediante a graça santificante. Com efeito, não contente de dar a nossos protoparentes e, neles, a todos os seus descendentes os dons naturais, a saber: a alma e o corpo, que correspondiam à sua natureza de homens, Deus também quis dar-lhes dons de todo indevidos, isto é, sobrenaturais, como é a graça santificante (verdadeira participação na natureza divina) e as virtudes infusas, e ainda dons preternaturais, como a integridade (isto é, a plena submissão do apetite sensitivo à razão), a impassibilidade e a imortalidade. Todo esse acúmulo de dons — naturais, sobrenaturais e preternaturais — nossos primeiros pais teriam transmitidos a seus descendentes, sob a condição, porém, de que prestassem a Deus um ato de obediência em prova de sua posição de súditos, abstendo-se de comer do fruto proibido.
O homem, o primeiro homem, como todos sabem, em seguida à instigação de Eva, seduzida pela serpente infernal, recusou a Deus esse ato de submissão e veio assim a perder, para si e seus descendentes, os dons indevidos à sua natureza, isto é, os dons sobrenaturais e os dons preternaturais, ficando só com os dons naturais, ou seja, a alma e o corpo.
Este primeiro pecado, chamado justamente de original, em virtude de sua solidariedade com Adão, do qual todos descendem, se transmite, junto com a natureza humana, a todos de sua prole, como consta da carta de São Paulo aos Romanos (5, 12-19), onde afirma que todos os homens pecaram em Adão, sua cabeça moral: “No qual todos pecaram” (Rom 5, 12).
Mesmo a Virgem Santíssima, justamente pelo fato de ser descendente de Adão por via de geração natural, deveria ter contraído esse pecado original, deveria ter aparecido neste mundo como nós, isto é, sem os dons preternaturais e sobrenaturais e, por conseguinte, privada da graça santificante e sujeita ao demônio. Deus, porém, como o definiu solenemente Pio IX, por um privilégio só a Ela concedido e, portanto, singular, em previsão dos méritos do Redentor, seu Filho, a Ela previamente aplicados, no primeiro instante de sua existência a preservou de incorrer na culpa original.
Disse por singular privilégio, pois ninguém, na inumerável multidão de descendentes de Adão, teve tal privilégio, senão Maria.
Disse em previsão dos méritos do Redentor, seu Filho, porque, como todos os outros descendentes de Adão, também a Virgem Santíssima, sujeita ao débito do pecado, teve necessidade do Redentor universal e da aplicação antecipada de seus méritos. Também Ela foi remida; antes, foi a primeira a ser remida; mas o foi de um modo mais excelente, isto é, por uma redenção preservativa (impedindo assim a queda) e não como nós, por uma redenção liberativa (reerguendo depois da queda).
Disse mais: no primeiro instante de sua existência, isto é, no momento mesmo em que sua alma foi criada e infundida em seu corpo. Portanto, quando a onda lodosa do pecado original estava para envolvê-la e abatê-la, a mão do Onipotente estendeu-se sobre Ela, impedindo assim que a atingisse. Maria não esteve nunca, portanto, nem mesmo um instante, sob a lei do pecado, sob o domínio de Satanás.
Isto posto, passemos a considerar a provas desse insigne privilégio.

II. AS PROVAS DO PRIVILÉGIO

1. A SAGRADA ESCRITURA

A Sagrada Escritura, a Tradição e a razão proclamam em altas vozes esse privilégio insigne.
A Sagrada Escritura, antes de tudo. Nenhuma passagem do Velho ou do Novo Testamento nos diz, explicitamente, que a Virgem não contraiu o pecado original. Dizem-nos isto, porém, implicitamente, duas passagens: uma do Velho (o Proto-evangelho) (Gen 3, 15) e uma do Novo Testamento (a saudação do Anjo a Maria (Lc 1, 28).
a) O Proto-evangelho. Di-lo implicitamente o Proto-evangelho, ou seja, o primeiro anúncio da redenção, feito por Deus mesmo a nossos protoparentes no Éden, logo depois da queda dos mesmos: “Eu porei inimizade entre ti e a mulher, entre a descendência tua e descendência dela. Ela te esmagará a cabeça e tu armarás insídias a seu calcanhar”. Esta mulher futura, vencedora de Satanás, é Maria. Do texto ora citado pode-se deduzir um duplo argumento em favor da Imaculada Conceição. Com efeito, o texto enuncia uma especial e ilimitada inimizade, ou seja, uma oposição plena e contínua entre o diabo, isto é, o pecado e a mulher profetizada, ou seja, a Senhora (aquela mesma oposição que teria de existir entre Cristo e o diabo). Mas essa oposição não seria plena e contínua se, mesmo por um só instante, a Virgem Santíssima tivesse de ficar sujeita ao pecado original, isto é, ao diabo.
Além disso, o texto do Gênesis declara que a Virgem Santíssima, junto com seu Filho, teria de conquistar (como consequência de sua plena e contínua inimizade com o diabo) um triunfo integral sobre o demônio e o pecado. O par dos vencidos (Adão e Eva) viria a ser substituído pelos dois vencedores (Cristo e Maria). Mas esse triunfo não teria sido integral se a Virgem Santíssima, no primeiro instante de sua existência, houvesse estado sujeita à culpa e, portanto, vencida pelo demônio.
No Proto-evangelho, portanto, encontramos revelada formalmente, embora só de modo implícito, a verdade da Imaculada Conceição.
b) A saudação do Anjo. Outro testemunho implícito da Imaculada Conceição, encontramo-la na saudação dirigida pelo Anjo à Virgem no dia da Anunciação.
Disse o Anjo: “Salve, cheia de graça; o Senhor é convosco; bendita sois vós entre as mulheres”. Notem-se bem três coisas: a Virgem Santíssima é proclamada cheia de graça, unida a Deus, bendita entre as mulheres, sem limite algum de tempo. São três afirmações que a põem equivalentemente, para fora da esfera contaminada pela culpa, na qual se movem todos os míseros filhos de Eva. Com efeito, Ela é saudada como tão cheia de graça que jamais poderá ter estado privada dela, nem mesmo por um só instante de sua existência; é saudada como unida de tal modo a Deus, que jamais terá podido estar separada dEle pelo pecado, nem mesmo por um instante; é saudada como bendita entre as mulheres de um modo que jamais terá podido, nem por um instante, ser objeto de maldição da parte de Deus. Esta é a interpretação dada pelos Padres às palavras do Anjo. Maria apareceu, portanto, neste mundo como uma aurora cândida, sem sombra de culpa: “quasi aurora consurgens”. Tudo isso se nos tornará evidente, se nos detivermos a fazer uma rápida análise dos três incisos da saudação do Anjo: são os três raios da Imaculada.
“Salve, cheia de graça!” A Virgem Santíssima é saudada como cheia de graça. Não só. Essa plenitude de graça é de tal modo uma propriedade da Virgem Santíssima que constitui, de certa maneira, seu próprio nome. Com efeito, o Anjo não diz: “Ave, Maria, cheia de graça”, mas diz simplesmente: “Ave, ó cheia de graça!” Este vocativo: “cheia de graça” é como o nome próprio e, portanto, como uma propriedade da Virgem Santíssima. Mas o que constitui a propriedade, isto é, o proprium de uma pessoa ou de uma coisa, lhe convém não só em algum período determinado de tempo, mas sempre. Assim, por exemplo, é próprio do sol resplandecer; por isto, o sol resplandece sempre. A plenitude de graça, portanto, sendo uma propriedade de Maria, deve ter existido sempre nEla; não só quando foi saudada cheia de graça, porém sempre, desde o primeiro instante de sua vida. Mas, onde está a graça, não pode estar o pecado, pois a graça é luz e o pecado, trevas; onde está a luz, não podem estar as trevas. Por força, pois, de sua plenitude de graça, ou seja, dessa sua propriedade, a Virgem Santíssima não deve jamais ter estado em pecado; deve ter sido, portanto, concebida Imaculada.
Não basta. O Anjo acrescenta mais: “O senhor é convosco”, isto é, o Senhor esteve e está em vós, de um modo todo particular, com sua sabedoria, poder e bondade; esteve e está em vós para vos proteger sob a sombra de suas asas, como a pupila de seus olhos. Não há nenhuma palavra do Anjo que circunscreva dentro de certo limite de tempo essa presença particular de Deus em Maria. Deus, portanto, esteve particularmente presente nEla em todos os instantes de sua vida, desde o primeiro instante de sua cara e gloriosa existência. Mas, onde Deus está presente não pode estar presente o demônio, ou seja, o pecado. Tanto mais que a Virgem Santíssima havia sido escolhida para a alta missão de esmagar a cabeça da serpente infernal, que tinha enganado a primeira mulher e a impelira a pecar. A Virgem Santíssima, desde o primeiro instante de sua existência pessoal, sentiu Deus presente em si mesma, sentiu-se filha de Deus, portanto, esteve imune da culpa original, que nos priva da presença especial de Deus.
O Anjo, por fim, coerentemente com as afirmações eloquentes dos dois incisos precedentes, disse mais: “Bendita sois vós entre as mulheres!”

Como é eloquente também este terceiro inciso! A Virgem Santíssima é, com efeito, declarada bendita de um modo todo particular, em sumo grau, sem limite algum de tempo, portanto, sempre. Mas, onde se tem presente a bênção de Deus, não pode estar presente de modo algum a maldição hereditária, que é constituída pelo pecado original. Com efeito, segundo a Escritura, um é o pecado por antonomásia, o pecado original; logo, uma também é a bênção por antonomásia, a imunidade do pecado original, causa da maldição de Deus. Nas palavras dirigidas pelo Anjo a Maria Santíssima: “Bendita sois entre as mulheres”, que não vê um paralelismo autêntico com as palavras dirigidas por Deus, logo depois da culpa original, à serpente: “Maldita és tu entre os animais da terra”? Como a maldição particular da serpente foi efeito e pena do pecado original, assim a bênção particular de Maria foi efeito e prêmio de sua preservação do pecado original.
A saudação do Anjo a Maria: “Salve, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois entre as mulheres!” equivale, em poucas palavras, a esta: “Ave, ó Imaculada!”.
No primeiro inciso, com efeito, acha-se expressa a causa formal de sua exímia pureza original, ou seja, a graça: “Salve, cheia de graça!”. No segundo inciso, acha-se expressa a causa eficiente dessa pureza, ou seja, Deus: “o Senhor é convosco”. No terceiro inciso, acha-se expresso o duplo efeito ou fruto da dupla causa, formal e eficiente, de tal pureza, ou seja, o fruto da plena preservação da maldição e o fruto da bênção singular: “Bendita entre as mulheres”. Em outras palavras, pois, o Anjo disse: “Ave, ó Imaculada!”

2. A TRADIÇÃO

a) Nos três primeiros séculos. À Sagrada Escritura, faz eco a Tradição.
Nos três primeiro séculos da Igreja, esse insigne privilégio era professado implicitamente no paralelo feito frequentemente entre Eva e Maria, na absoluta pureza e santidade da Virgem Santíssima, na veracidade da maternidade divina. Estas três grandes verdades, professadas explicitamente, continham, como em germe, a doce verdade da imunidade de Maria Santíssima à culpa original.
Continha a Imaculada Conceição o conhecidíssimo paralelo Eva-Maria, tanto pela razão da semelhança quanto da oposição que existira entre elas. Pela razão da semelhança, quer dizer: Como Eva saíra pura e imaculada das mãos de Deus, assim também Maria, nova Eva, deveria ter saído pura e imaculada, cheia de graça, das mãos de seu Criador. Tanto mais que a primeira Eva haveria de dar a todos os seus descendentes a morte, enquanto a segunda Eva iria dar a todos a vida. Pela razão da oposição: Aquela que era, com efeito, destinada por Deus para reparar a culpa de Eva, como poderia ter incorrido na mesma culpa?
Continha a Imaculada Conceição a verdade da absoluta pureza e santidade de Maria, exaltada de mil modos pelos Padres da Igreja. Pois exigiam, de fato, que jamais culpa alguma, tanto atual como original, houvesse maculado ou tivesse podido macular a alma de Maria.
Continha a Imaculada Conceição a verdade fundamental da divina maternidade de Maria, a qual é inconciliável com qualquer mácula moral, pois a ignomínia da Mãe haveria de refletir-se sobre o Filho.
b) Do século IV em diante. No quarto século, o insigne privilégio começa a ser professado de modo explícito, especialmente na Igreja Oriental. Santo Efrém, o Sírio, canta assim a imaculada pureza de Maria: “Tu e tua Mãe sois os únicos totalmente belos, pois em ti, Senhor, não existe nenhuma mácula e nenhuma mácula existe em tua Mãe” (Carmina Nisibena, p.40, Leipzig, 1866).
Esta profissão explícita se torna, com o correr dos séculos, mais frequente, até que, nos séculos XI e XII, começa a atrair a atenção dos teólogos da Igreja Latina, com o que se inicia o período das discussões que terminam, depois, por eliminar todos os obstáculos e por fazer resplandecer em pleníssima luz o insigne privilégio. Nem deve causar surpresa o fato de que um privilégio tão luminoso haja sido posto em dúvida, ou, mesmo, negado, no decurso dos séculos, por homens insignes pela piedade e pela doutrina, movidos por algumas razões contrárias que lhes pareciam insolúveis, embora tenham sido depois solucionadas. Tal oposição foi providencial, pois serviu para despertar a atenção dos fiéis e fazer resplandecer cada vez mais fúlgida a verdade. “Um eclipse do sol”, escreve com graça Santo Antônio M. Claret[1], “chama a atenção de todos os habitantes de um hemisfério; ao contrário, quando não há nenhum eclipse, pouquíssimos levantam os olhos para o rei dos astros. Ó quantos e quantos levantaram os olhos da mente, contemplaram a beleza de Maria, eleita como o sol, e verificaram que a opinião contrária não era mais do que uma lua passageira, satélite da terra, mais vizinha de nós do que dela, e que nada havia de presunção em sua beleza por si mesma, embora fosse pouco entendida por nós. Ó quantos cânticos de louvor temos ouvido e dos quais teríamos ficado privados se não tivesse havido tais oposições! Aconteceu o que se passa com um viajante que, em marcha à hora de meio-dia, cansado e fatigado, chega a um vale verdejante e fresco, coberto de rosas, lírios e violetas; vê uma fonte de água abundante e cristalina, que corre de uma rocha, pára, refresca o rosto, bebe a água e senta-se à margem do regato, e observa que, no meio do mesmo, existem alguns seixos que parecem opor obstáculo a seu curso; mas não é assim: a água, de fato, não se detém por isso e aqueles seixos são a causa de certo murmúrio que dão origem a uma sinfonia mais doce e mais grata aos ouvidos que as composições musicais mais melodiosas. Se não houvesse aqueles seixos, a água correria silenciosamente por seu álveo. Todos sabemos que a dúvida do Apóstolo São Tomé foi motivo para o Senhor dar provas mais claras de sua ressurreição.”

3. A RAZÃO

Depois da Sagrada Escritura e da Tradição, demos a palavra à razão. Esta nos demonstra que Deus podia preservar a Virgem da culpa original e que era conveniente que o fizesse, de tal modo que o contrário (ou seja, o contrair a Virgem a culpa original) teria sido uma coisa de todo inconveniente e, portanto, moralmente impossível por parte de Deus.
A razão nos demonstra, pois, que Deus podia preservar a Virgem Santíssima da culpa original, visto tal preservação não apresentar nenhuma repugnância. Não repugna de modo algum com relação a Deus, o qual é Onipotente e pode fazer tudo que não é contraditório. Não repugna de modo algum com relação ao Filho, pois que não derroga em nada à sua pureza singularíssima (tendo Ele sido concebido de modo virginal), nem à universalidade de sua redenção (continuando Ele a ser redentor de todos e também, antes de um modo mais sublime, de Maria). Não repugna em nada com relação ao Espírito Santo, pois Este podia muito bem, melhor do que purificá-la da culpa já contraída, preservá-la do contágio dessa culpa. É bem verdade que se trata de um privilégio singular, extraordinário, inaudito, porém, tudo, não é, porventura, singular, extraordinário, inaudito em Maria? Sua lei é a exceção.
Mas a razão, além de demonstrar-nos a nenhuma repugnância da conceição imaculada, demonstra-nos ainda sua múltipla conveniência. Demonstra sua conveniência por parte de Deus Pai, o qual estava, por assim dizer, obrigado a isentar a Virgem, sua filha predileta, da culpa original, pois que um dia haveria de ter em comum com Ele o próprio Filho divino. Demonstra sua conveniência por parte do Filho, o qual a teria um dia por Mãe e a ignomínia de Maria se teria refletido necessariamente sobre o Filho. Demonstra sua conveniência por parte do Espírito Santo, o qual a teria um dia por Esposa. Era conveniente, portanto, que Ela fosse preservada do contágio da culpa original, que a aurora de sua vida estivesse em harmoniosa relação com seu meio-dia.
Ademais, quem tiver de tratar de um negócio importante junto a um grande personagem deve ser, antes de tudo, uma pessoa grata ao mesmo, pois, de outra forma, seu aparecimento o irritaria. No entanto, a Virgem Santíssima estava destinada a tratar junto a Deus do importantíssimo negócio de nossa reconciliação com Ele. Devia ser, portanto, uma pessoa que lhe fosse grata. E não o teria sido se, mesmo por um só instante, houvesse estado sujeita à culpa original.
Com toda razão, portanto, o Sumo Pontífice Pio IX, satisfazendo às ardentes aspirações de todo o orbe católico, no dia 8 de dezembro de 1854 definiu solenemente, como dogma de fé, a imunidade de Maria em relação ao pecado original. À voz do Pontífice fazia eco, apenas quatro anos depois, a própria Virgem. Aparecendo, com efeito, em Lourdes no ano de 1858, à Santa Bernadete que perguntava qual era seu nome, respondeu sorrindo: “Eu sou a Imaculada Conceição”. Como se quisesse dizer: Eu sou aquela que o Vigário de meu divino Filho definiu, faz pouco, como Imaculada!
Era a sanção trazida do céu à definição feita sobre a terra pelo Vigário de Cristo. E os milagres contínuos, espantosos, que a Virgem realiza em Lourdes em favor de quem a invoca sob esse belo título, mostram claramente quanto ele lhe seja caro ao coração e quanto lhe agrade ser exaltada por motivo daquele singular privilégio.

CONCLUSÃO

Maria é, portanto, a Imaculada! Sua alma, desde o primeiro instante de sua infusão no corpo, se nos apresenta toda circundada de lírios, toda embalsamada por unguentos deliciosos do céu! E é a nossa Mãe, que foi assim agraciada com um privilégio tão grande, tão glorioso!… A glória da Mãe irá refletir-se espontaneamente sobre seus filhos…
Exultemos! Mas, ao mesmo tempo, tenhamos o mais profundo horror ao pecado. O privilégio insigne concedido por Deus a Maria nos mostra a inexprimível aversão dEle ao pecado, aversão que O levou a preservar sua Mãe mesmo daquela culpa que se contrai por necessidade de natureza.
Enfim, oremos! Rezemos à Virgem Santíssima para que, não tendo podido imitá-la com entrar neste mundo sem a mancha da culpa, possamos ao menos imitá-la no sair deste mundo sem pecado.
[1] Cfr. L’Immacolata, Introd. e notas do P. G. Roschini O.S.M., p.58-59, Ed. Ancora, 1943.
—————
ROSCHINI, G. Instruções Marianas. Tradução de José Vicente. São Paulo: Edições Paulinas, 1960, p.119-127.