A imodéstia, o inferno e o purgatório » Uma história

Por Melissa Bergonso
Purgatório
Hoje a imodéstia está, infelizmente, tão comum que acabamos por nos “habituar” a vê-la. Ela está estampada em outdoors, em pinturas, em propagandas; ela é modelada nas esculturas, apresentada como algo “cool” em novelas, em filmes, e, infelizmente, nossas vistas não escapam da sua exibição até mesmo dentro da Igreja. E ninguém reclama. Ou pelo menos, parece que não. Alguns até que ainda se escandalizam, pensando: “Como essa pessoa tem coragem de vir trajada desse jeito à Missa???” Mas esse tipo de questionamento costuma apenas passar pelo pensamento, nunca sendo alto o bastante para que a pessoa em questão o ouça e, quem sabe, se toque e se envergonhe do seu mau exemplo.

Pouco é dito, especialmente por parte dos sacerdotes, sobre a modéstia dos atos e das roupas, dentro e fora da Igreja. Pouco é ensinado acerca do que agrada ou desagrada a Deus, do porquê certos modismos e modas são más em si mesmas e não devem ser seguidas. Tem-se medo de ofender as pessoas, afastá-las da Igreja, por conta das coisas mundanas que se é preciso ao cristão renunciar para agradar a Deus, mas ao mesmo tempo, não se tem medo de ofender a Deus e afastar as almas da Sua graça santificante. Isto sim é pura insensatez e estupidez. Preferir a si mesmo, o seu prestígio perante a “comunidade”, à salvação das almas e daqueles que lhe são confiados.

Nosso bom ou mau exemplo podem influir, respectivamente, positivamente ou negativamente na vida espiritual de outra pessoa. Nós podemos ser tanto causa de edificação como de queda para outras almas. Somos cristãos, então devemos nos preocupar em ser causa de edificação, sempre, através do bom exemplo, das boas palavras ditas, dos bons conselhos, das boas maneiras, da firme posição em não desagradar a Deus, e também, não menos importante, pelo modo como nos vestimos.

O Pe. Schouppe, em seu livro “O que é o Purgatório”, diz que “aqueles que tiveram o infortúnio de dar mau exemplo, ferir ou causar a perda das almas pelo escândalo, devem ter empenho em reparar tudo neste mundo, se não querem ser sujeitos à mais terrível expiação no outro.”[1] Ele ainda fala que “os escândalos produzem grandes devastações nas almas, seduzindo a inocência. Ah! Esses malditos sedutores! Eles terão que prestar a Deus uma terrível conta do sangue de suas vítimas.”[2] Parece pouco? ou história de amedrontar crianças? Não mesmo. Eis o que ele conta em seu livro:

O Pe. Rossignoli relata em seu Merveilles du Purgatoire que um pintor, de grande habilidade e vida exemplar, uma vez fez uma pintura não inteiramente conforme às estritas regras da modéstia cristã. Era uma dessas pinturas que, sob o pretexto de serem obras de arte, são encontradas nas melhores famílias, e cuja vista causa a perda de muitas almas.

A verdadeira arte é uma inspiração do Céu, que eleva a alma a Deus. A arte mundana, que apela somente aos sentidos e apresenta aos olhos nada mais que belezas da carne e do sangue, não é senão uma inspiração do espírito mau.

O artista de que falamos se permitiu desviar-se nesse ponto, pelo mau exemplo. Logo, entretanto, renunciando a esse pernicioso estilo, entregou-se à produção de pinturas religiosas, ou pelo menos daquelas que eram perfeitamente irrepreensíveis.

Finalmente, estava pintando um grande quadro no convento dos Carmelitas Descalços quando foi atacado por uma doença mortal, falecendo com os melhores sentimentos de piedade.

Algum tempo depois ele apareceu a um religioso, rodeado de chamas e suspirando de modo a provocar compaixão: “Eu sofro por causa daquela imodesta pintura que pintei há alguns anos. Quando apareci diante do Soberano Juiz, uma multidão de acusadores testemunhou contra mim. Declararam que tinham sido excitados a pensamentos impuros e maus desejos, pela pintura que foi obra de minha mão. Em consequência desses maus pensamentos, alguns estão no Purgatório, outros no Inferno. Estes clamam por vingança, dizendo que, tendo eu sido causa de sua perdição eterna, eu merecia no mínimo a mesma punição. Então a Bem-Aventurada Virgem e os Santos, a quem eu tinha glorificado em minhas pinturas, tomaram a minha defesa. Disseram ao Juiz que essa infeliz pintura tinha sido obra da juventude, da qual eu me arrependera; que eu a tinha reparado depois com objetos religiosos, que tinham sido fonte de edificação para as almas. Assim fui livrado da danação, mas condenado às chamas até que meu trabalho seja queimado e não possa escandalizar mais ninguém”.

Por isso o pintor pediu ao religioso que fosse à casa de um tal senhor, que havia encomendado o quadro, e lhe explicasse a situação, pedindo-lhe que o destruísse: “Se ele se recusar, ai dele! Para provar que isto não é uma ilusão, e para puni-lo por sua própria falta encomendando tal pintura, diga-lhe que muito breve ele perderá seus dois filhos. E se ele se recusar a fazer o que ordena Aquele que nos criou a ambos, pagará com uma morte prematura”.

O religioso foi à casa do tal senhor, que imediatamente queimou o quadro. Mas como lhe tinha sido anunciado, em menos de um mês perdeu os dois filhos. O resto de sua vida, passou em penitência por ter ordenado e mantido aquela pintura imodesta em casa.[3]

Como podemos ler um texto assim e ainda continuarmos indiferentes? Como podemos não olhar para nós mesmos, como num espelho, para o modo como temos expostos nossos corpos (no passado ou no presente – e para aqueles que se recusam a entender, no futuro)? Como podemos ignorar o quanto não mortificamos nossos olhos para as coisas imodestas? Para o quanto não cuidamos de sermos bons exemplos? Para as vezes que fomos motivos de escândalo? Conforme Pe. Schouppe,“se tais são as consequências de uma pintura imodesta, quais serão então as punições de mais desastrosos escândalos, como o das vestimentas imorais, filmes, novelas, maus livros, maus jornais, más conversas? Ai do homem por quem o escândalo é cometido!”[4] E pensar que há tantos “católicos” que assistem novelas – especialmente as da globo – que são cheias de cenas indecentes e imodestas!

Que esse pequeno texto que relata a história do pintor e sua pintura imodesta nos sirva para refletirmos acerca de como temos nos vestido, nos portado, diante de Deus e também diante de nossos irmãos. Deus, tudo vê. Não adianta alegar ignorância. Quem sabe ler e possui um mínimo de inteligência não pode dizer que “só importa o coração”. É obrigação nossa buscarmos conhecer a verdade das coisas, especialmente a doutrina e a moral católica. Não dá para dizer “ah, Deus não se importa com isso”. Deus se importa sim. E esta história narrada no livro do Pe. Schouppe é prova disto.

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[1] Padre F. X. SCHOUPPE, S.J. O que é o Purgatório. 2ª Edição. São Paulo: Artpress, 2007, p.60.

[2] Ibidem, p.62.
[3] Ibidem, p.61-62.
[4] Ibidem, p.62.


Comentários ( 8 )

    • É, eu também!! Ao mesmo tempo que são educativas, dá um frio na espinha em ler certas coisas!! É bom pra fazer a gente pensar mesmo e reavaliar o modo como estamos vivendo!!

      Beijos!

  • A paz !

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    Salve Maria Santíssima

    Att
    Mateus

    • Olá, Mateus!

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      Fica com Deus! Salve Maria!

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