Precisamos de Maria Mediadora

Por Padre J. M. Dayet
Jesus Cristo é nosso Mediador de redenção e de justiça junto ao seu Pai. Maria é nossa Mediadora de intercessão e de misericórdia junto ao seu Filho.
Por meio de Jesus Cristo, apoiados e revestidos por seus méritos, acedemos ao Pai, oramos a ele com toda a Igreja triunfante e militante. Quando recitamos o Pater, é pelo coração e pelos lábios do Filho que fazemos subir essa prece que glorifica e que pede. Não foi ele quem no-la ensinou? É também por seus méritos que podemos chamar Deus “nosso Pai”, visto que sua redenção conquistou para nós a graça de nossa filiação divina. Desse modo, não nos apoiamos sobre nós mesmos, sobre nossos próprios trabalhos, habilidades e preparações, que seriam de pouca importância diante de Deus, para fazê-lo se unir a nós e nos atender.
Negligenciar essa meditação e querer nos aproximar diretamente da Majestade e da Santidade do Pai, sem nenhuma recomendação, seria, diz-nos Montfort, “faltar com humildade, faltar com respeito para com um Deus tão elevado e tão santo; seria fazer menos caso desse Rei dos reis do que faríamos de um rei ou um príncipe da terra, do qual não desejaríamos nos aproximar sem algum amigo que falasse em nosso favor”.[1]
Nossa Senhora das GraçasMas nossa miséria de pobres pecadores é tamanha – como acabamos de ver – que, mesmo junto de Jesus Mediador, precisamos ainda de Maria Mediadora. Apesar de possuir uma natureza semelhante à nossa, Jesus permanece “Deus, em todas as coisas igual ao seu Pai. Ele é, por isso, o Santo dos santos, tão digno de respeito quanto seu Pai. Se, por sua caridade infinita, ele se fez nossa caução e nosso mediador junto a Deus, seu Pai, para aplacar sua ira e pagar-lhe o que lhe devemos, importa, por essa razão, que tenhamos menos respeito e temor por sua Majestade e sua Santidade?
“Digamos, portanto, ousadamente com São Bernardo, continua Montfort, que necessitamos de um mediador junto ao próprio Mediador, e que a divina Maria é a mais capaz de cumprir esse ofício caridoso”.[2]
A primeira e melhor razão é a que nos dá o próprio Verbo encarnado, quando de sua Encarnação: visto que é por intermédio de Maria que ele veio até nós, é, pois, por Maria que devemos ir a ele. Não podemos fazer melhor do que imitar seu exemplo. Em Belém, os pastores o contemplam ainda pequenino, deitado por sua Mãe em uma manjedoura. Um pouco mais tarde, são os Magos que o adoram sobre os joelhos e nos braços de sua Mãe. Por meio dela, ele enche-os todos com seus tesouros de graças. O mesmo se dará ao longo de toda a sua vida terrena: desde sua Apresentação no Templo, onde começa ostensivamente seu Sacrifício, até o Calvário, onde ele se consuma, é sempre Jesus que se oferece ao seu Pai e que se doa, por meio de Maria, ao mundo manchado de crimes que ele veio lavar em seu sangue.

Nossa miséria de pobres pecadores deve, pois, nos levar a implorar com ousadia a ajuda e a intercessão de Maria. Ela é boa, acolhedora, acessível aos nossos pedidos. “Nada há nela de austero nem de desencorajador, nada de sublime ou brilhante demais; vendo-a, vemos nossa natureza pura.” Por mais santa, por mais elevada que seja, ela permanece sendo uma simples pessoa humana. “Ela não é o sol que, pela vivacidade de seus raios, poderia nos cegar devido à nossa fraqueza; mas ela é bela e doce como a lua, que recebe sua luz do sol para torná-la conforme ao nosso pequeno alcance.

Ela é tão caridosa que não rejeita nenhum daqueles que pedem sua intercessão, por mais pecadores que sejam; pois, como dizem os santos, nunca se ouviu dizer, desde que o mundo é mundo, que alguém tenha recorrido à Santa Virgem com confiança e perseverança, e tenha sido por ela rejeitado.

Ela é tão poderosa que seus pedidos nunca foram negados. Ela só precisa se apresentar diante de seu Filho para pedir a ele, que logo concede, que logo acolhe; “é sempre amorosamente vencido pelo seio, pelas entranhas e pelas preces de sua caríssima Mãe”.[3]

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Encontramos às vezes certas almas, orgulhosas até em sua piedade, que vos dizem que não têm necessidade de passar pela Santa Virgem, nem de recorrer à sua intercessão; dirigem-se diretamente ao Nosso Senhor e se unem assim a ele. É preciso desculpá-las: falta-lhes luz sobre a Santa Virgem e sobre si mesmas. Não refletiram sobre o lugar central que ocupa Maria no plano divino em sua qualidade de Mãe de Deus e de Corredentora de nossas almas. Nunca escrutaram, sobretudo, o fundo de suas misérias. Um pouco de humildade abrir-lhes-ia os olhos.

Sucede também que encontramos outras almas – estas muito humildes e belas – que amaram e amam muito ainda a Santa Virgem, mas que, a partir de um certo tempo, se acostumaram a se dirigir mais frequentemente a Nosso Senhor diretamente, a falar-lhe familiarmente e a provar da intimidade de sua união com ele. Experimentam, então, alguns temores, perguntam-se se ainda estão no bom caminho, se amam ainda a Santa Virgem como antes; e interrogam, pedem conselho. É preciso tranquilizá-las: nessas almas amorosas e dóceis, Maria Mediadora cumpriu sua obra de santificação. Despojou-as de seu amor-próprio e de sua própria vontade; revestiu-as com suas virtudes amáveis; colocou-as em intimidade direta com Nosso Senhor. Depois, ela não se retirou (pois nunca se retira), mas como que se apagou, se eclipsou, pôs-se na sombra, a fim de deixar essas almas saborearem melhor as alegrias de sua união ao seu divino Filho.

Esse é o testemunho que nos deu de si mesma a reclusa carmelita do beguinário de Gante, Maria de Santa Teresa († 1677), alma admiravelmente privilegiada. Espantando-se, um dia, por não mais gozar com tanta frequência como outrora da presença da amável Maria e de suas instruções ou afetuosas palavras, ela tinha, contudo, a íntima convicção de que seu amor era mais tão terno, inocente, filial e doce do que nunca. Veio-lhe, então, esta resposta interior: quando a amável Mãe estava constantemente junto de ti e te guiava no caminho de suas virtudes, era a fim de te preparar para a união perfeita com seu caríssimo Filho. Agora que essa união se cumpriu, ela se mantém afastada e te deixa conversar sozinha com ele… [4] Essa alma gozava da união mística.

Ainda não chegamos a esse ponto. Enquanto permanecemos às voltas com nossas misérias, sentimos profundamente essa necessidade de recorrer à Maria, de sempre passar por sua intercessão para ir a Jesus. Quando, recitando as Ave de nosso Rosário, bendizemo-la primeiro: “bendita sois vós entre as mulheres”, é para melhor bendizer, em seguida, seu divino Filho: “bendito o fruto de vosso ventre, Jesus”. “A mais forte inclinação de Maria, diz-nos Montfort, é de nos unir a Jesus Cristo, seu Filho; e a mais forte inclinação do Filho é que nos dirijamos a ele por meio de sua santa Mãe”.[5] Oferecemos-lhe honra e prazer quando seguimos o caminho virginal que ele quis tomar para vir a nós. Maria atrai pelo encanto de sua bondade maternal, mas não retém jamais uma só alma; e é coisa muito notável que as almas verdadeiramente marianas sejam sempre almas eucarísticas. A maravilha de Lourdes se realiza nelas: em nenhum lugar, como nesse canto de terra aonde se dirigem as multidões do mundo inteiro, Jesus-Hóstia é mais amado, mais aclamado e mais glorificado. Maria exerce ali, com esplendor, seu papel de Mediadora.

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[1] São Luís Maria Grignion de Montfort. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n.83.
[2] Serm. in Domin. infra octav. Assumptionis, n.2; Montfort, no n.85 do Tratado, apenas cita esse sermão de São Bernardo.
[3] Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n.85.
[4] Ver A União mística a Maria, por Maria de Santa Teresa, nos Cadernos da Virgem, n.15. Editions du Cerf.
[5] Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n.75.

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J. M. Dayet. Exercícios Preparatórios para a Consagração de São Luís Maria de Montfort. Brasília: Editora Pinus, 2012, p.140-145.


Comentários ( 6 )

    • Oi, Cynthia!

      Sim! O Pe. Roschini, no seu livro Instruções Marianas, dá uma lista das figuras de Maria e das coisas que a simbolizavam no Antigo Testamento.

      As mulheres que prefiguraram Nossa Senhora foram:

      – Eva;
      – Sara;
      – Raquel;
      – Rebeca;
      – Ester;
      – Judite;
      – Abigail;
      – a Mãe dos Macabeus;
      – Betsabé;

      E as coisas que simbolizavam a Nossa Senhora foram:

      – o Paraíso terrestre;
      – a Arca de Noé, feita de um lenho incorruptível;
      – a escada de Jacó;
      – a sarça ardente;
      – a vara de Moisés;
      – a vara de Arão;
      – o velo branco de Gedeão;
      – a Arca do Testamento;
      – o Templo de Salomão.

      O Pe. Roschini explica o significado de cada prefiguração. Vou ver se digito o texto e posto no blog. O texto é ótimo!

      Beijos!

    • Interessante, eu vi em um artigo sobre Ester e Judite apenas, já tinha lido o livro de Ester e não o de Judite, mas não com esse olhar, vou prestar atenção nisso.

      Da lista não entendi o porque de Eva, já que ela foi enganada pela serpente e pecou… Qual a relação com Santa Maria, então?

    • Sobre a prefiguração de Maria na figura de Eva, o Pe. Roschini explica que:

      “A primeira figura de Maria foi Eva, antes da culpa. No momento em que saiu das mãos do Criador, Eva era um deslumbramento. Sem sinal de imperfeição, nem física nem moral; a inocência e a graça adornavam seu rosto e a tratavam como à sua rainha. Suas paixões estavam perfeitamente sujeitas à razão e esta a Deus. Bem podia dizer-se dela que uma centelha da face divina resplandecia em toda sua pessoa. Ora, como não ver nessa primeira mulher uma figura expressiva de Maria? Como Jesus Cristo foi chamado pelos Padres o novo Adão, assim também a Virgem foi chamada de a nova Eva. A primeira Eva foi mãe de todos os viventes na ordem da natureza; a segunda Eva, Maria, o foi na ordem, desmesuradamente superior, da graça. Se lançarmos, porém um olhar à primeira mulher depois da culpa, eis que Maria se nos apresenta como totalmente diferente. Com efeito, Eva, falando com o Anjo das trevas, que lhe apareceu sob o aspecto de uma serpente, consentiu na prevaricação e arruinou todo o gênero humano; Maria, ao contrário, falando com o Anjo da luz, consentiu na reparação do gênero humano e o salvou. Eva ofereceu ao homem o fruto de morte; Maria, ao contrário, lhe deu o fruto da vida. Eva foi medianeira da morte, Maria foi medianeira da vida.” (Pe. Gabriel ROSCHINI. Instruções Marianas. São Paulo: Edições Paulinas, 1960, p.35).

    • Gera um estranhamento inicial a afirmação dessa prefiguração, porque quando pesamos em Eva nos vem a cabeça o Pecado, não sua natureza antes do pecado.

      Interessante também como nem toda relação é direta e tão explícita, achei linda essa última comparação, de que por Eva veio o pecado ao mundo, e por Maria veio Cristo.

    • Sim, realmente! Eu só fui entender essa prefiguração depois de ler o livro e as explicações do Pe. Roschini.

      Ah, não sei se você viu, mas eu já respondi os comentários que você tinha deixado no post do Apostolado das Parteiras e da minha Consagração de Escravidão a Nossa Senhora. Demorei pra responder porque quis procurar nos livros onde estavam as explicações hehe…

      Beijos!

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