Da apresentação da Santíssima Menina Maria no Templo (§ 1)

Por Padre Manuel Bernardes

Considera como, aos três anos de sua idade, foi transplantada essa lindíssima arvorezinha Maria[1], que nos havia de produzir o dulcíssimo e preciosíssimo fruto de vida eterna Jesus; foi, digo, transplantada de casa de seus venturosos pais Joaquim e Ana, em Nazaré, ao Templo da Cidade Santa de Jerusalém, para que ali, como em lugar mais próprio, se dedicasse toda ao culto de Deus e aos ministérios do seu serviço.

Pondera como essa Apresentação e oferta foi religiosa, foi voluntária e foi prudente. Foi religiosa, isto é, puramente por dar honra ao Altíssimo e cumprimento ao voto que Sta. Ana fizera, de lhe dedicar o fruto que o Senhor lhe desse, à imitação de outra matrona Ana, mãe de Samuel, também de antes estéril e depois, por mercê de Deus, fecunda. Foi voluntária, não retardando o dom e despojando, sem repugnância e com grande amor, da melhor filha, os pais, e dos melhores pais a filha, só por servirem a Deus. E foi prudente, porque, suposto que a casa dos Santos Joaquim e Ana era enfim de Santos, todavia o Templo era casa de Deus, mais honrada, mais segura, mais remota das carícias do amor natural e dos rebuliços do século: Ut Virginem una cum corpore animam conservasset, ut eam decebat, quae Deum in sinu suo exceptura erat[2] (disse S. João Damasceno). Estava aqui o jardim do Esposo murado, e a fonte de seu refrigério fechada: Hortus conclusus soror mea sponsu, hortus conclusus, fons signatus[3]; estava a pombinha nos buracos da pedra: Columba mea in foraminibus petrae[4]; e finalmente estava a Arca Mística no seu próprio lugar, porque o Templo não foi edificado senão por intuito da Arca do Testamento, e não era outra coisa senão figura ou sombra de Maria Santíssima, mais isenta do pecado do que o cedro de corrupção, mais ornada dos dons da graça do que a Arca de lâminas de ouro.
Aprendamos daqui, mortais, a ser primorosos e agradecidos a Deus; se recebemos, ofereçamos – e ofereçamos não o que menos préstimo tem para o mundo, senão o que mais estimamos; ofereçamos de boa vontade, que a boa vontade é todo o preço do dom; ofereçamos sem tecer demoras, como quem, já que não pode negar o dom, ao menos desfalca ou belisca no tempo da posse. Aprendamos também a fuga do século para lugar mais defeso dos seus perigos: são estes mais encobertos e danosos do que cuidamos; para que é aprendê-los da triste experiência, podendo só da doutrina e fé certa? Se essa fuga se retarda, talvez não se logra: antecipa-se o Demônio e entreprende nossos santos desígnios. Quantas almas, se tivessem essa cautela, escapariam dos seus laços? Depois querem e já não podem, porque quando podiam não quiseram.
Considera também como essa ide de Nazaré a Jerusalém não foi solenizada, como foi a translação da Arca, com público e numerosíssimo acompanhamento, com procissões, danças, instrumentos, músicos, sacrifícios grandiosos, senão somente foi levada a pequenina (que era a maior que o mesmo Templo: Templo maior est hic[5]) em braços de sua Mãe Sta. Ana e em companhia de S. Joaquim, com mais alguns parentes, e oferecida ao sacerdote; mas, invisivelmente, corria a festa por conta dos Anjos, que não faltaram a milhares a essa função da Senhora, que o era de todos. Era esse presente que levavam muito do agrado de Deus; e como Deus é espírito e em espírito quer ser adorado, ali tinham seus olhos de que satisfazer-se, na majestade e no ornato das virtudes e dos dons que aquela tenra menina levava consigo. Não era necessária, na translação dessa Arca mística, ostentação pomposa, que convinha na outra figurativa, para excitar a religiosa veneração daquele povo. Importava que ainda não se publicassem os tesouros que nessa alma se encerravam, e queria Deus plantar no mundo, em seu Filho Jesus Cristo e em sua Mãe Santíssima os exemplos de humildade e da virtude sólida, desconhecida no mundo.
Oh! quem recolhera e imprimira bem na alma esses exemplos! Quem, no serviço de Deus, buscara primeiro o interior da substância do que os exteriores das circunstâncias? Quem soubera estimar as coisas pelo que em si são, e não pelo o que aparece; pelo que a Deus agrada, e não pelo que o mundo aplaude. Ninguém, por certo, vendo uma menina de três anos nos braços de sua mãe, ou levada pela sua mão, dissera, salvo Deus lhe revelasse, que ali ia um tesouro tão grande de virtude, uma joia de valor infinito, o original que se tinha copiado por partes em todas as ilustres matronas da lei, Débora, Judite, Ester, Raquel, a mãe dos sete Mártires Macabeus e as mais; e o que mais é, a futura Mãe do Messias, expectação das gentes e glória daquele povo de Israel. O certo é que, só pelo que luz no mundo, não se pode fazer juízo certo das coisas, e quem mais adicto vive aos sentidos, mais arriscado procede aos enganos.
Ó Menina Santíssima, que ides para o Templo, sendo Vós o mesmo Templo vivo de Deus; que ides ensinar virtudes a vossas mestras, parecendo que ides aprender delas; que ides levada pela mão do Altíssimo, parecendo levada pela de Ana; que ides cercada de celestial milícia, parecendo que ides solitária: dignai-vos de levar convosco o meu coração, a minha memória e todo o meu espírito; para Deus vai, se vai convosco; e se convosco habita, no Céu habita; seja eu do venturoso número dos vossos devotos que vos sabem servir, adorar e louvar, e que merecem perceber e seguir a fragrância de vossas virtues, para mais glorificar ao Autor delas.
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[1] Nicephor., lib. 1. Histor. c. 17. German Constantinop., Orat de oblatione V.
[2] Damasc. de Fide Orthodoxa, lib. 4, c. 5.
[3] Cant., IV, 12.
[4] Cant., II, 14.
[5] Matth., XII, 6.

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Padre Manuel BERNARDES. Meditações sobre os principais mistérios da Virgem Santíssima Senhora Nossa. Brasília: Editora Pinus, 2010, p.74-76.

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