São Tomás de Aquino: Exposição sobre o Credo » Subiu aos céus e está sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso

09/05/2013 Jesus Cristo | Santo Tomás de Aquino Nenhum comentário
Por Santo Tomás de Aquino

Depois de se afirmar a Ressurreição de Cristo, convém crer na sua Ascensão, pois Ele subiu para o céu após quarenta dias de ressuscitado. Eis porque se diz no Credo: “Subiu aos céus.” Devemos considerar as três características principais deste acontecimento, isto é, que ele foi sublime, racional e útil.

Foi sublime, porque Ele subiu para os céus. Explica-se isto de três maneiras.
Primeiro, porque Ele subiu acima de todos os céus corpóreos[1], conforme se lê em São Paulo: Subiu acima de todos os céus (Ef 4, 10). Tal ascensão foi realizada pela primeira vez por Cristo, porque até então o corpo terreno estivera somente na terra, sendo o paraíso, onde esteve Adão, situado também na terra.
Segundo, porque subiu sobre todos os céus espirituais, isto é, acima das naturezas espirituais, como se lê também em São Paulo: Colocando (o Pai) Jesus à sua direita nos céus, sobre todo Principado, Potestade, Virtude, Dominação e acima de todo nome que se pronuncia não só neste século, mas também nos futuros, e tudo colocou sob os seus pés (Ef 1, 20).
Terceiro, porque subiu até o trono do Pai. Lê-se nas Escrituras: Eis que vinha sobre as nuvens do céu como um Filho de Homem; Ele dirigiu-se para o Ancião, e foi conduzido á sua presença (Dan 7, 13). Lê-se também em São Marcos: E o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado subiu ao céu, e sentou-se à direita de Deus (Mr 16, 19).
A expressão direita de Deus não deve ser entendida em sentido corporal, mas em sentido metafórico. Enquanto Deus, diz-se que Cristo está sentado à direita de Deus, porque é igual ao Pai; enquanto homem, diz-se que Cristo está sentado à direita do Pai, porque goza dos melhores bens. O diabo aspirou também semelhante elevação, como se lê em Isaías: Subirei ao céu, acima dos astros de Deus colocarei o meu trono; sentar-me-ei no Monte da Promessa, que está do lado do Aquilão; subirei acima da elevação das nuvens, serei semelhante ao Altíssimo (Is 14, 13-14).[2] Mas a tal altura não se elevou senão Cristo, razão pela qual se diz no Credo: Subiu aos céus e está sentado à direita do Pai, o que é confirmado no Livro dos Salmos: Disse o Senhor ao meu Senhor, senta-te à minha direita (Sl 109, 1).
A Ascensão de Cristo foi racional por três motivos.[3]
Primeiro, porque o céu era devido a Cristo por exigência da sua natureza. É, com efeito, natural que cada coisa retorne à sua origem. Cristo tem sua origem em Deus, que está acima de todas as coisas, conforme Ele mesmo disse: Saí do Pai, e vim ao mundo; deixo agora o mundo e volto para o Pai (Jo 16, 28). Disse também: ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do Homem que está no céu (Jo 3, 13).
Apesar de os Santos irem para o céu, todavia não o fazem como Cristo: porque Cristo o fez por seu próprio poder; os santos, porém, levados por Cristo. Lê-se no Livro dos Cânticos: Leva-me na Vossa sequência (Cant 1, 4).
Pode-se explicar de outra maneira porque se diz que ninguém subiu ao céu a não ser Cristo: os Santos não sobem senão enquanto membros de Cristo; que é a cabeça da Igreja, conforme está escrito em São Mateus: Onde estiver o corpo, aí as águias se congregarão (Mt 24, 28).[4]
Em segundo lugar, a Ascensão de Cristo foi racional devido à sua vitória. Sabemos que Cristo veio ao mundo para lutar contra o diabo, e o venceu. Por isso mereceu ser exaltado sobre todas as coisas. Confirma-o o Apóstolo: Eu venci, e sentei-me com o Pai no seu trono (Ap 3, 21).
A Ascensão de Cristo foi racional, em terceiro lugar, por causa da humildade de Cristo, que, sendo Deus, quis fazer-se homem; sendo Senhor, quis suportar a condição de escravo, fazendo-se obediente até à morte, segundo se lê na Carta aos Filipenses (2, 6-8), descendo ainda até ao inferno. Por isso mereceu ser exaltado até ao céu e sentar-se à direita de Deus. A humildade é, com efeito, o caminho da exaltação, como se lê em São Lucas: Quem se humilha, será exaltado (Luc 14, 11). Escreveu também São Paulo: O que desceu do céu, este é o que subiu acima de todos os céus (Ef 4, 10).
A Ascensão de Cristo foi, além de sublime e racional, também útil. Essa afirmação pode ser esclarecida em três dos seus aspectos.
O primeiro, refere-se ao fim da Ascensão, pois Cristo foi para o céu para nos conduzir até lá. Desconhecíamos o caminho, mas Ele no-lo ensinou. Lê-se: Subiu abrindo o caminho na frente deles (Mq 2, 13). Subiu ao céu também para nos fazer seguros da posse do reino celeste, conforme se lê em São João: Vou preparar-vos o lugar (Jo 14, 2).
O segundo, refere-se à segurança que a Ascensão nos trouxe, pois subiu aos céus para interceder por nós. Lê-se: Subiu por si mesmo ao Deus sempre vivo para interceder por nós (Heb 7, 25). Lê-se também: Temos um advogado junto do Pai, Jesus Cristo (1 Jo 2, 1).
O terceiro, para atrair a si os nossos corações, segundo está escrito em São Mateus: Onde está o teu coração está o teu tesouro (Mt 6, 21), e para que desprezemos as coisas temporais, como nos exorta o Apóstolo S. Paulo: Se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus; saboreai as coisas do alto e não as da terra (Col 3, 1-2).
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[1] “São Tomás fala conforme o sistema dos antigos que distinguiam muitos céus materiais, como nós distinguimos troposfera, estratosfera, ionosfera… A ascensão de Cristo — acima de todos os céus materiais — significa que Ele saiu do cosmos.” (Le Credo, Saint Thomas d’Aquin. Introduction, traduction et notes par un moine de Fontgombault. Nov. Ed. Latines, Paris, 1969, p. 230). Na Suma Teológica S. Tomás explica o que seja “subir acima de todos os céus: quanto mais alguns corpos participam da divina bondade, tanto mais estão acima da ordem corporal, que é a ordem loca. […]. Mais participa da bondade divina um corpo pela glória, que qualquer corpo natural pela forma da sua natureza. Ora, entre os demais corpos gloriosos, é evidente que o corpo de Cristo refulge por maior glória. Portanto, foi convenientíssimo a ele que fosse constituído sobre todos os corpos do alto. Comentando a carta aos Efésios, capítulo IV, — Subindo ao alto —, assim lê-se na glossa: Isto é, pelo lugar e pela dignidade.” (Suma Teológica, III, q.57,a.4, c).

[2] Assim precisa S. Tomás, na Suma Teológica, o sentido da expressão direita de Deus: “Sentar-se à direita de Deus não significa estar simplesmente na bem-aventurança eterna, mas possuir a bem-aventurança com certo poder dominativo, quase próprio e natural. Esse poder só a Cristo convém, não a nenhuma outra criatura.” (Suma Teológica, III, q.58, a.4, ad.2).

[3] Apesar de toda a exposição do Credo, feita aqui por São Tomás, ser no sentido de um trabalho teológico, no qual ele usa argumentos muito simples e acessíveis ao senso comum, quis ressaltar mais, neste ponto, a conveniência da Ascensão de Cristo, analisando-a por motivos racionais. Esses motivos procuram sempre explicar um texto da Sagrada Escritura. A teologia não é apenas uma explicação filosófica ou histórica da Revelação, mas é principalmente o esforço da inteligência humana para penetrar o sentido racional da Palavra de Deus revelada. Como a inteligência humana procura a verdade pelo raciocínio lógico e certo, a teologia é uma ciência especulativa coerente e racional. O objeto da ciência teológica refere-se “a Deus principalmente; às criaturas conforme referem-se a Deus como princípio e fim.” (Suma Teológica, I, q.1, a.3, ad.1). A teologia é ciência superior a todas as outras, quer às ciências especulativas, quer às ciências práticas, quanto à certeza das suas conclusões e quanto à dignidade do seu objeto (Cf. Suma Teológica, I, q.1, a.5). Porque a teologia apresenta a última e satisfatória explicação das coisas na última causa, que é Deus, é chamada de Sabedoria. “Esta doutrina (isto é, a teologia) é máxime a sabedoria entre todas as sabedorias humanas, não apenas em uma determinada ordem, mas de um modo absoluto.” (Suma Teológica, I, q.1, a.6, c).

[4] O mesmo texto escriturístico (Mt 24, 28) é interpretado por São Tomás, anteriormente, com pequena diferença. “[…] a meditação dos mistérios da Encarnação aumenta em nós o desejo de nos aproximarmos de Cristo. Se alguém, irmão de um rei, dele longe estivesse, naturalmente desejaria aproximar-se dele, estar com ele, permanecer junto dele. Ora, sendo Cristo nosso irmão, devemos desejar estar com Ele e nos unirmos a Ele. Com relação a esse desejo, lê-se em S. Mateus: Onde quer que esteja o cadáver, aí se apresentarão os abutres (Mt 24, 28).” (Santo Tomás de Aquino. Exposição sobre o Credo. 4ª Edição. São Paulo: Edições Loyola, 1997, p.43).
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Santo Tomás de Aquino. Exposição sobre o Credo. Tradução e notas: D. Odilão Moura, OSB. 4ª Edição. São Paulo: Edições Loyola, 1997, p.59-61.

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