Maria Santíssima, modelo de mortificação

Nossa Senhora adentrando no templo aos três anosPor Santo Afonso Maria de Ligório
 
Manus meae stillaverunt myrrham, et digiti mei pleni myrrha probatissima — «As minhas mãos destilaram mirra, e os meus dedos estavam cheios da mirra mais preciosa» (Cant 5, 5).
 
Sumário. Na Santíssima Virgem tudo estava em perfeita harmonia, porque estava isenta do pecado original e cheia de graça. A carne obedecia prontamente ao espírito; e o espírito a Deus. Contudo ela foi tão amante da mortificação que se tornou um modelo perfeito desta virtude. Quanto mais mortificados não devemos ser nós que temos tantas más paixões a exprimir e quiçá tantas culpas a expiar. E somos tão delicados e tão amantes de nossa comodidade. A continuarmos assim, como nos poderemos gloriar de ser filhos de Maria?
 
I. É uma verdade de nossa fé que a Santíssima Virgem, pro ser concebida isenta de pecado, não teve nenhuma desordem interior a combater. Apesar disso, o Senhor quis que em toda a vida ela se portasse de tal forma que se tornou um modelo perfeito de mortificação.
 
Com efeito, Maria praticou a mortificação interior, conservando o coração sempre desprendido de todas as coisas terrestres: desprendida estava das riquezas, querendo sempre viver pobre e ganhando o sustento com os trabalhos de suas mãos; desprendida das honras, amando a vida humilde e obscura, posto que lhe coubesse o título de nobreza, por ser descendente dos reis de Israel; desprendida afinal dos seus santos pais, porque na idade de três anos os deixou resolutamente, para ir encerrar-se no templo.
 
Quanto à sua mortificação exterior, na verdade é pouco o que a este respeito sabemos; mas esse pouco é mais do que suficiente para a nossa edificação. Maria mortificava de tal maneira a vista, que tinha os olhos sempre baixos, e jamais os fixava em alguém, como dizem Santo Epifânio e São Damasceno, e acrescentam que desde menina foi tão recatada, que admirava a todos. Que direi da escassez do nutrimento e da redundância dos trabalhos? esta quase excedendo as forças da natureza, aquela lhe quase faltando; esta não lhe permitindo tempo algum livre, aquela continuando os dias em jejum. E quando veio a vontade a refazer-se, a comida foi a mais óbvia só para afastar a morte, não para prestar delícias. Não se deu ao sono senão obrigada pela necessidade, mas quando o corpo repousava, o ânimo vigiava.
 
Finalmente, quando a Bem-Aventurada Virgem foi mortificada em tudo o mais, bem se infere do que ela mesma revelou a Santa Isabel beneditina, conforme se lê em São Boaventura: «Sabe», disse-lhe, «que não recebi de Deus nenhuma graça sem grande trabalho, oração contínua, desejo ardente e muitas lágrimas e penitências». Em suma, foi Maria em tudo mortificada, de modo que foi dito dela que suas mãos destilaram mirra, a qual na explicação dos intérpretes é símbolo da mortificação: Manus meae stillaverunt myrrham.
 
II. Se Maria, a mais inocente de todas as virgens, quis praticar a tal ponto a mortificação, quanto mais não devemos nós praticá-la, nós que temos tantas más inclinações que reprimir, e quiçá tantos pecados que expiar! Seja, pois, o fruto da presente meditação o exercício da mortificação cristã.
 
Quanto ao interior, vejamos qual seja a nossa paixão dominante, e esforcemo-nos por vencê-la, pois quem não a subjugar, está em grande perigo de se perder; ao contrário, aquele que vencer a paixão dominante, facilmente vencerá todas as outras.
 
Pelo que respeita à mortificação exterior, devemos, antes de mais nada, mortificar a vista, por cuja causa já muitos se acham no inferno. Notemos o que diz São Francisco de Sales: «Não é tanto o ver, como o olhar, que é a causa da perdição». — Devemos em seguida mortificar a língua, abstendo-nos de toda a crítica e de palavras injuriosas e livres. Uma palavra livre, embora dita só para rir, pode ser causa de escândalo e de mil pecados. — Em terceiro lugar devemos mortificar a gula, comer para viver, e não viver para comer. Afirma Cassiano que é impossível que não esteja sujeito a muitas tentações impuras o que se farta de comida ou de bebida. — Devemos afinal mortificar o ouvido e o tato, evitando escutar conversas maliciosas e murmurações, e usando de toda a cautela tanto para com os outros como para nós mesmos, fugindo de todo o brinquedo de mãos. Imitando Maria Santíssima, devemos praticar a mortificação em todas as coisas e assim mostrar-nos seus dignos filhos: Filii Mariae, imitatores eius.
 
Se não te sentires com força para tanto, recorre com confiança a esta Mãe amorosíssima; põe-te debaixo de sua proteção especial e dize muitas vezes com São Bernardo: «Lembrai-vos, ó misericordiosíssima Virgem Maria, que jamais se ouviu dizer fosse por vós desamparado algum daqueles que têm recorrido à vossa proteção, implorado o vosso auxílio, e exorado o vosso valimento. Animado eu, pois, com igual confiança, a vós, ó Virgem das virgens, ó minha Mãe, recorro; a vós me acolho; e gemendo sob o peso dos meus pecados, me prostro aos vossos pés. Não queirais desprezar as minhas súplicas, ó Mãe do Verbo incarnado, mas escutai-as favoravelmente e dignai-vos de atendê-las. Assim seja»[1].
 
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[1] Indulgência de 300 dias cada vez, e plenária uma vez por mês, para quem rezar a cada dia.
 
Santo Afonso Maria de Ligório. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo Terceiro: desde a duodécima semana depois de Pentecostes até ao fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p.92-94.
 
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Comentários ( 2 )

  • Olá Melissa,
    Parabéns pelo seu blog! Gostava de saber como você aprendeu tanto sobre a religião católica e os seus ritos. Eu sou católica fiz todos os “passos”, mas pouco sei, estou tentando aprender mas está a ser muito difícil. Comecei por estudar a bíblia com meu marido, a pesquisas alguns blogs, estudar mais e mais a bíblia e comecei a vestir-me com mais modéstia. Fui à igreja na terça-feira falar com o Sr. Padre, perguntei se existem aulas sobre a doutrina ou estudos bíblicos e ele disse que não “não existem mas pode por suas dúvidas a mim que eu respondo”, mas elas são tantas! O estudo da bíblia deve ser feito com calma e não à presa pois a sala de espera estava cheia de gente. Por isso estou assim sozinha mais o meu marido aprendendo com blogs e estudando a bíblia, tentando fazer direito e agradar ao senhor.
    Fique com Deus,
    Vânia

    • Olá, Vânia! Salve Maria! Obrigada :)

      Na realidade, o que sei sobre doutrina e sobre a Igreja Católica foi por ler o Catecismo de São Pio X e o Catecismo Romano, e também por ler alguns livros piedosos, especialmente de santos, como os livros de Meditações de Santo Afonso, partes da Suma Teológica de São Tomás de Aquino, entre outros.

      O primeiro passo para se conhecer bem a doutrina católica é estudar o Catecismo. Estudar a bíblia em primeiro lugar não vai ajudar muito e pode até mesmo não ser bom, pois existem muitas passagens que são de difícil compreensão, e se lemos essas passagens primeiro antes de sabermos a doutrina católica, podemos incorrer em erros de interpretação e de entendimento. Por isso, recomendo fortemente que você adquira o Catecismo de São Pio X. Ele é pequeno, bem simples e de fácil compreensão, feito em forma de perguntas e respostas, e não é um livro caro. Pode ser adquirido neste site. Eu também aconselho você a adquirir o Catecismo Romano. Infelizmente, não consegui encontrá-lo para venda, mas você pode fazer o download dele clicando neste link. O Catecismo Romano é ótimo, pois ele é bem minucioso nas explicações sobre as verdades de Fé.

      Caso você deseje alguma explicação a mais, envie-me um email através do formulário de contato. Coloco-me à disposição para lhe ajudar.

      Fica com Deus!
      Em Cristo,
      Melissa Bergonso

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