Quinta Dor de Maria Santíssima – Morte de Jesus

Por Santo Afonso Maria de Ligório
Maria aos pés da Cruz

Et erit vita tua quasi pendens ante te — «A tua vida estará como suspensa diante de ti» (Deut 28, 66).

Sumário. Contemplemos acerba dor de Maria Santíssima no Calvário, obrigada a assistir a Jesus moribundo, a ver todas as penas que ele padecia, sem contudo lhe poder dar alívio. Então, a aflita Mãe não cessou de oferecer a vida do Filho à divina justiça pela nossa salvação. Lembremo-nos que pelo merecimento de suas dores cooperou para nos fazer nascer para a vida da graça. Por isso todos nós somos seus filhos. Oh, como a Virgem exerceu sempre e ainda exerce bem o ofício de Mãe! Mas como nos havemos nós como filhos?

I. Fogem as mães da presença dos filhos moribundos; e se por acaso alguma mãe se vê obrigada a assistir a um filho que está para morrer, procura-lhe todos os alívios que pode dar. Concerta-lhe a cama, para que esteja em posição mais cômoda; serve-lhe refrescos, e assim a pobre mãe procura mitigar a própria dor. Ah, Mãe a mais aflita de todas as mães, ó Maria! Incumbe-vos o assistir a Jesus moribundo, mas não vos é permitido dar-lhe algum alívio.
Maria ouviu o Filho dizer: Sitio tenho sede; mas não lhe foi permitido dar uma gota de água para lhe mitigar a sede. Só pode dizer-lhe, como contempla São Vicente Ferrer: Filho, não tenho senão a água de minhas lágrimas: Fili, non habeo nisi aquam lacrimarum. Via que sobre aquele leito de morte Jesus, pregado com três cravos de ferro, não achava repouso. Queria abraçá-lo para lhe dar alívio, ao menos para o deixar expirar entre seus braços; mas não podia. Via o pobre Filho, que naquele mar de aflições buscava quem o consolasse, como ele já tinha predito pela boca do profeta Isaías (Is 63, 5). Mas quem entre os homens o desejava consolar, se todos eram seus inimigos? Mesmo sobre a cruz um o blasfemava e escarnecia de uma maneira, outro de outra, tratando-o como impostor, ladrão, usurpador sacrílego da divindade, digno de mil mortes.
O que mais aumentou a dor de Maria e a sua compaixão para com o Filho, foi ouvi-lo sobre a cruz lamentar-se de o Eterno Pai também o ter abandonado: Deus, Deus meus, ut quid dereliquisti me? (Mat 27, 46) — «Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?». Palavras, como disse a Bem-Aventurada Virgem à Santa Brígida, que não puderam nunca mais sair-lhe da ideia enquanto viveu. De modo que a aflita Mãe via o seu Jesus atormentado de todas as partes; queria aliviá-lo, mas não podia. Pobre Mãe!
II. Pasmavam os homens, diz Simão de Cássia, vendo que a divina Mãe guardava o silêncio, sem se queixar no meio da sua grande dor. Mas, se Maria guardava o silêncio com a boca, não o guardava com o coração, porquanto naquelas horas não fazia senão oferecer à justiça divina a vida do Filho pela nossa salvação. Saibamos, pois, que pelo mérito de suas dores ela cooperou para nos fazer nascer para a vida da graça, e por conseguinte somos filhos das suas dores: Mulier, ecce filius tuus (Jo 19, 26) — «Mulher, eis aí teu filho».
Naquele mar de amargura era este o único alívio que então a consolava: o saber que por meio de suas dores nos conduzia à salvação eterna. — Desde então começou Maria a exercer para conosco o ofício de boa Mãe; pois que, como atesta São Pedro Damião, foi pelas súplicas de Maria que o bom ladrão se converteu e se salvou, querendo a divina Mãe recompensá-lo assim pela delicadeza que outrora lhe mostrou na viagem ao Egito. E o mesmo ofício de mãe tem a Bem-Aventurada Virgem continuado sempre e continua a exercer. Nós, porém, com as nossas obras mostramo-nos deveras seus dignos filhos?
Ó Mãe, a mais aflita de todas as mães! Morreu, enfim, vosso Filho, tão amável e que tanto vos amava! Chorai; que tendes razão para chorar. Quem jamais poderá consolar-vos? Só vos pode consolar o pensamento que Jesus com a sua morte venceu o inferno, abriu o céu fechado aos homens, e ganhou tantas almas. Do trono da cruz reinará sobre tantos corações que, vencidos pelo amor, com amor lhe servirão. Não recuseis entretanto, ó minha Mãe, que vos acompanhe a chorar convosco, já que mais que vós tenho razão de chorar pelas ofensas que tenho feito a vosso Filho. Ah, Mãe de misericórdia! Em primeiro lugar pela morte de meu Redentor, e depois pelos merecimentos de vossas dores, espero o perdão e a salvação eterna. (* I 245.)
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Santo Afonso Maria de Ligório. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo Primeiro: Desde o primeiro Domingo do Advento até Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p.413-415.
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