Comemoração de todos os Fiéis Defuntos – 02 de Novembro

Por Santo Afonso Maria de Ligório

 
Sancta et salubris est cogitatio pro defunctis exorare, ut a peccatis solvantur — «É um santo e salutar pensamento orar pelos mortos para que lhes sejam perdoados os seus pecados» (2 Mac 12, 46).
 
Sumário. A devoção às almas do purgatório é muito agradável ao Senhor, e utilíssima ao que a pratica. Jesus Cristo ama imensamente estas suas esposas e suspira pelo momento em que as possa estreitar contra o peito; e as santas prisioneiras mostrar-se-ão gratas para aquele que lhes obtém o livramento do seu cárcere ou ao menos algum alívio nas suas penas. Sufraguemos, pois, constantemente as almas do purgatório, particularmente neste mês e neste dia consagrados à sua memória.
 
I. A devoção às almas do purgatório, que consiste em recomendá-las a Deus para que lhes alivie as grandes penas que padecem e as chame em breve para a sua glória, é muito agradável ao Senhor e utilíssima ao que a pratica. Sim, porque Jesus Cristo ama imensamente essas almas; e posto que a sua justiça inexorável o constranja, por assim dizer, a mostrar-se para com elas Juiz severo, e exigir que sejam limpas de toda a mancha antes de serem admitidas ao céu, no qual não entrará coisa alguma contaminada — Non intrabit aliquod coinquinatum (Apoc 21, 27) —, não deixa isso, todavia, de ser um estado de constrangimento. Jesus suspira pelo momento em que poderá apertar contra o peito as suas santas esposas e coroá-las rainhas do seu reino bem-aventurado. — É este um dos motivos pelos quais estabeleceu a comunicação dos santos, quer dizer uma comunicação mútua de bens entre nós e as Igrejas, triunfante e padecente. Além disso impõe-nos Deus o preceito de praticarmos o bem para com os defuntos: Mortuo non prohibeas gratiam (Eclo 7, 37) — «Não impeças que a liberalidade se estenda aos mortos».
 
As santas prisioneiras do purgatório serão gratas àquele que lhes obtém o livramento daquele cárcere, ou ao menos algum alívio das penas e nunca mais se esquecerão daquele que por elas intercedeu. Piamente se pode crer que Deus lhes revele as nossas orações, afim de que elas orem também por nós. — Verdade é que as almas do purgatório não podem rezar para si mesmas, porque ali se acham como condenadas, que satisfazem pelas suas culpas; todavia porque são mui queridas por Deus, podem orar por nós e obter-nos muitas graças.
 
Quando Santa Catarina de Bolonha desejava obter alguma graça, recorria às almas do purgatório, e logo se via atendida. Declarou que por intermédio dessas almas alcançou diversas graças que não tinha alcançado por intermédio dos Santos. São inúmeras as graças que os devotos afirmam terem obtido pela intercessão das santas almas do purgatório.
 
II. Se as almas do purgatório já se mostram agradecidas aos seus devotos, mesmo quando ainda estão penando naquele cárcere; se-lo-ão muito mais depois de entradas na glória celeste. Alcançar-lhes-ão os favores mais assinalados, e especialmente a salvação eterna. — Tenho por certo que uma alma, livre do purgatório pelos sufrágios de algum devoto, uma vez entrada no céu, não deixará de dizer a Deus: «Senhor, não permitais que se perca aquele que me livrou do cárcere do purgatório e me fez entrar mais depressa na alegria do vosso reino».
 
Avivemos, pois, a nossa devoção para com essas santas prisioneiras. Sobretudo no dia de hoje, em que a Igreja celebra a sua comemoração, apliquemos-lhes todas as nossas orações. No correr do mês de Novembro, que a devoção dos fiéis lhes consagrou, ofereçamos em seu sufrágio alguma esmola, algum jejum ou qualquer outra mortificação. Para o mesmo fim, frequentemos os santos sacramentos e façamos algumas vezes a Via Sacra. — Mas sobretudo ouçamos por elas, o mais possível, a santa missa, e, se o permitir a nossa condição, mandemos celebrar alguma missa, que é o sufrágio mais proveitoso às almas. Afirma São Jerônimo que «cada missa devotamente celebrada faz sair várias almas do purgatório», e em outra parte: «As almas que penam no purgatório, pelas quais o sacerdote ora durante a celebração da missa, não sentem as penas enquanto durar a celebração».
 
Meu amabilíssimo Jesus, «Deus Criador e Redentor de todos os fiéis, concedei às almas dos vossos servos e servas a remissão de todos os seus pecados, para conseguirem com pias súplicas a indulgência, que sempre desejaram. — Ó Senhor, dai-lhes o descanso eterno e a luz perpétua lhes resplandeça»[1]. — Peço-vos também esta graça, ó Maria, grande Mãe de Deus e Mãe daquelas almas que padecem tanto. — Almas benditas, roguei por vós e sempre por vós rogarei;  mas já que sois tão queridas por Deus e estais certas de que não o podeis mais perder, rogai por mim, miserável, que estou ainda em perigo de me condenar e de perder a Deus para sempre. (*II 466.)
 
[1] Or. festi.
 
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LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo Terceiro: desde a duodécima semana depois de Pentecostes até ao fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 387-390.
 
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