Jesus merece ser amado pelo amor demonstrado na instituição da Eucaristia

Por Santo Afonso Maria de Ligório
“Sabendo Jesus que chegara sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13, 1).

Nosso Salvador, sabendo ter chegado a hora de partir deste mundo, antes de morrer por nós, quis deixar-nos a maior prova possível de seu amor. Foi precisamente este dom do Santíssimo Sacramento. Diz São Bernardino: “As provas de amor que se dão na hora da morte ficam mais firmemente na memória e se prezam mais”[1]. Daí o costume de os amigos, ao morrer, deixarem algum presente, uma peça de roupa, um anel, às pessoas que amaram na vida, como recordação de sua amizade.
— Mas vós, Jesus, partindo deste mundo, o que nos deixastes em memória de vosso amor? Não uma veste, um anel, mas o vosso corpo, o vosso sangue, a vossa alma, a vossa divindade, vós mesmo, todo, sem reservas. “Deu-se todo não reservando nada para si”[2], diz São João Crisóstomo.

Neste dom da Eucaristia — diz o Concílio de Trento — Cristo quis derramar todas as riquezas do amor que reservava para os homens[3]. Ele quis fazer esse presente aos homens precisamente na noite em que os homens lhe preparavam a morte. Como diz São Paulo: “Na noite em que foi entregue, o Senhor Jesus tomou o pão e depois de dar graças, partiu-o e disse: esto é o meu corpo que é entregue por vós”[4]. Diz São Bernardino de Sena que Jesus Cristo, abrasado de amor por nós e não satisfeito de preparar-se para dar sua vida pela nossa salvação, foi constrangido pelo excesso de seu amor a fazer uma obra maior: dar-nos, como alimento, o seu próprio corpo[5].

Santo Tomás chama esse sacramento: “Sacramento de amor, prova de amor”[6]. Sacramento de amor, porque só o amor o levou a dar-se todo nele. Prova de amor para que nós, se alguma vez duvidarmos de seu amor, tenhamos neste sacramento uma prova. É como se nos dissesse o Redentor quando nos deixava este dom:

— Homens, se algum dia duvidarem de meu amor, eis que eu lhes deixo a mim mesmo neste sacramento. Com tal garantia na mão, não podem ter dúvidas de que eu os amo e os amo muito!

São Bernardo chama esse sacramento: “Amor dos amores”[7]. É que este dom compreende todos os outros que o Senhor nos fez: a criação, a redenção, o destino ao céu. A Eucaristia não é só garantia do amor de Jesus Cristo, mas é também garantia do paraíso que ele nos quer dar… “no qual, nos é dada a garantia da glória futura”, diz a Igreja[8]. Por isso São Felipe Neri não sabia chamar a Jesus Cristo na Eucaristia senão com o nome de “amor”. Quando lhe foi levado o viático, ouviram-no exclamar: “Eis o meu amor, dai-me o meu amor”[9].

[1] S. Bernardino de Sena, Quadragesimale de Evangelio aeterno, sermo 54, in Coena Domini, a. 1, c. 1.
[2] S. João Crisóstomo, Expositio in Ps. 44, nº 11. MG 55-200.
[3] Concílio de Trento, Sess. XIII, c. 2.
[4] 1 Cor 11, 23-24.
[5] S. Bernardino de Sena, Obra citada, sermo 54, in Coena Domini, a. 1, c. 1.
[6] Summa Theol. 3, q. 73, a. 3, ad. 3; 3, q. 75, a. 1; 3, q. 78, a. 3, ad. 6.
[7] S. Bernardo, Sermo de excellentia SS. Sacramenti et dignitate sacerdotum, nº 10. ML 184-987.
[8] Antigo Ofício da festa de Corpus Christi, ant. ao Magnificat.
[9] Pietro Giacomo Bacci, Vita, Brescia 1706, l. 4, c. 1, nº 4.

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LIGÓRIO, Santo Afonso Maria de. A prática do amor a Jesus Cristo. 7a. Edição. Aparecida, SP: Editora Santuário, 1996, p. 25-27.

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