Uma loucura

Por Santo Afonso Maria de Ligório

Quem pôde, alguma vez, levar Deus a morrer condenado numa cruz no meio de dois criminosos, com tanta vergonha para sua grandeza de Deus? Quem fez isto? pergunta São Bernardo. E responde:

― “Foi o amor, que esqueceu sua dignidade[1].

O amor quando procura fazer-se conhecido, não leva em conta aquilo que mais convém à dignidade da pessoa que ama, mas o que mais conduz a manifestar-se à pessoa amada. Com muita razão exclamava São Francisco de Paula, olhando um crucifixo: “Ó caridade, ó caridade, ó caridade[2]. Vendo Jesus na cruz, deveremos, entusiasmados, exclamar: ó amor, ó amor, ó amor!

Se a fé não nos garantisse, quem poderia crer que Deus onipotente, Senhor de tudo, quis amar tanto o homem, parecendo até ficar fora de si, por amor de nós? São Lourenço Justiniano dizia: “Vimos a própria sabedoria, o Verbo Eterno enlouquecido por excessivo amor pelos homens”[3].

Tomando nas mãos um crucifixo, Santa Maria Madalena de Pazzi exclamava admirada: Sim, Jesus, vós estais louco de amor. Eu o digo e sempre direi, estais louco de amor[4].

Mas Dionísio Areopagita dizia: Não, não é loucura. O amor de Deus tem como efeito fazer sair fora de si aquele que ama, e se dar inteiramente à pessoa amada[5].

Oxalá os homens considerassem, olhando Jesus Crucificado, o afeto que ele teve a cada um de nós! São Francisco de Sales dizia: Ficaríamos abrasados à vista das chamas que se encontram em nosso Redentor! Que felicidade poder arder naquele fogo em que arde nosso Deus! Que alegria estarmos unidos a Deus com cadeias de amor[6]. São Boaventura dizia que as chagas de Jesus Cristo ferem os corações mais duros e aquecem as almas mais frias[7]. Quantas flechas de amor saem dessas chagas e ferem os corações mais insensíveis! Quantas chamas saem do Coração ardente de Cristo e aquecem os corações mais frios! Quantas cadeias saem do lado ferido e prendem os corações mais endurecidos!

[1] S. Bernardo, Tratactus de caritate, c. 6, n°. 29: ML 184-599 ― In Cantica, Sermo 64, n°. 10: ML 183-1088.

[2] Isidoro Toscano di Paola, Vita, l. 4, c. 7.
[3] S. Lourenço Justiniano, Sermo in Nativ. Domini, n°. 4.
[4] Sta. M. Madalena de Pazzi, cit. de Puccini, Vita, p. I, c. 11.
[5] Dionísio Areopagita, De divinis nominibus, c. 4 § XIII. MG 3-711.
[6] Gallizia, Vita, l. 6, c. 2: Massime e detti spirituali, Massime pergli ecclesiastici, n°. 5.
[7] S. Boaventura, Stimulus amoris, p. 1, c. 1.

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Santo Afonso Maria de Ligório. A prática do amor a Jesus Cristo. 7a. Edição. Aparecida, SP: Editora Santuário, 1996, p. 17-19.