Santa Pelágia

25/05/2011 Vida dos Santos Nenhum comentário
Pelágia, a mais célebre das mulheres da cidade de Antioquia, possuía muitos bens e riquezas, corpo belíssimo, hábitos ostentatórios e vãos, era impudica de espírito e de corpo. Quando passeava pela cidade fazia-o com tal ostentação que nela se viam apenas ouro, prata e pedras preciosas e por onde ia enchia o ar com o odor de seus diversos perfumes. Era sempre precedida e seguida por imensa multidão de moças e de rapazes também brilhantemente vestidos.
Um santo padre chamado Verônio, bispo de Heliópolis, hoje Damieta, ao vê-la começava a derramar lágrimas amargas por ela se interessar mais em agradar ao mundo do que ele em agradar a Deus. Prosternando-se, batia o rosto na terra e regava-a com suas lágrimas, dizendo:

Deus altíssimo, perdoe-me, pecador que sou, porque essa meretriz gastou mais tempo em adornar seu corpo para um único dia do que empreguei em toda a minha vida para me salvar. Ó Senhor, que os enfeites de uma meretriz não sejam para mim motivo de confusão quando aparecer em presença de sua temível majestade. Ela se orna com os mais refinados cuidados terrenos, e eu, que me propus agradar a meu Senhor imortal, fui negligente e não cumpri minha promessa.

Ele falou aos que se encontravam ali: “Na verdade digo a vocês que Deus apresentará essa mulher contra nós no dia do Juízo, porque ela se pinta com cuidado para agradar amantes terrenos, ao passo que nós negligenciamos em agradar o esposo celeste”. Enquanto dizia coisas deste tipo, subitamente adormeceu e viu em sonho uma pomba negra e extremamente fedorenta esvoaçar à sua volta enquanto celebrava a missa. Quando disse aos catecúmenos que se retirassem, a pomba desapareceu e voltou depois da missa. Então a mergulhou em um vaso cheio de água, de onde saiu limpa e branca, voou tão alto que não se podia vê-la, e aí o bispo acordou.
Uma vez em que ele pregava na igreja, Pelágia estava presente e ficou tão comovida com suas palavras, que por meio de um mensageiro mandou-lhe uma carta dizendo: “Ao santo bispo, discípulo de Cristo, Pelágia, discípula do diabo. Se quiser comprovar que é verdadeiramente discípulo de Cristo, que pelo que ouvi desceu do Céu em favor dos pecadores, digne-se me receber, por pecadora que seja, mas arrependida”. Ele respondeu: “Peço não tentar minha humildade, porque sou um homem pecador, mas se você deseja ser salva não poderá me ver sozinho, e sim junto com outros”.
Quando chegou perto dele e dos outros, ela segurou seus pés derramando lágrimas muito amargas e disse: “Sou Pelágia, um mar de iniquidades agitado por ondas de pecado, sou um abismo de perdição, sou sorvedouro e armadilha das almas. Muitos se deixaram enganar por mim e agora tenho horror de tudo isso”. Então o bispo a interrogou: “Qual seu nome?”. Ela: “De nascimento sou chamada Pelágia, mas por causa do luxo de minhas vestes sou conhecida por Margarida”. O bispo acolheu-a com bondade, ordenou-lhe uma penitência salutar, instruiu-a com cuidado no temor a Deus e regenerou-a pelo santo batismo. O diabo, que estava ali, gritava: “Ó que violência sofro desse velho decrépito! Ó violência! Ó velho malvado! Maldito o dia em que nasceu para ser meu inimigo e tirar minha maior esperança!”.
Naquela mesma noite, enquanto Pelágia dormia, o diabo foi despertá-la para dizer: “Senhora Margarida, que mal fiz a você? Não a ornei de todo tipo de riquezas e de glória? Suplico, diga-me no que a entristeci, e no mesmo instante repararei o dano que fiz. Peço apenas que não me abandone, para que não me torne objeto do desprezo dos cristãos”. Mas ela fez o sinal-da-cruz e soprou sobre o diabo, que desapareceu imediatamente. Três dias mais tarde ela juntou tudo que tinha, vendeu e deu aos pobres. Poucos dias depois, escondida de todo mundo, Pelágia fugiu durante a noite e foi ao monte das Oliveiras, onde adotou o hábito de eremita e passou a morar em uma pequena cela na qual serviu a Deus com rigorosa abstinência. Ela gozava de imensa fama e era chamada de irmão Pelágio.
Mais tarde, um diácono do bispo acima referido foi a Jerusalém visitar os lugares santos, e o bispo recomendou que após aquela visita fosse ver um monge de nome Pelágio, porque era um verdadeiro escravo de Deus. Ele assim o fez, e ela o reconheceu de imediato, mas ele não, por causa da extrema magreza dela. Pelágia perguntou: “Seu bispo é vivo?”. Ele: “Sim, senhor”. Ela: “Que ele rogue por mim ao Senhor, pois é um verdadeiro apóstolo de Cristo”. O diácono foi embora e voltou à cela de Pelágio três dias mais tarde. Como depois de ter batido à porta ninguém apareceu, ele forçou a janela e viu que Pelágio estava morto. Correu anunciar isso ao bispo, que veio com o clero e todos os monges para celebrar as exéquias de tão santo homem, mas quando se tirou o corpo da cela percebeu-se que era uma mulher. Todos ficaram muito admirados, deram graças a Deus e em seguida sepultaram honrosamente o santo corpo. Ela faleceu no dia 8 de outubro, por volta do ano do Senhor de 290.
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VARAZZE, Jacopo de. Legenda Áurea: Vida de Santos. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 849-851.

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