Comemoração da Lança e dos Cravos de Nosso Senhor Jesus Cristo

Por Santo Afonso Maria de Ligório

Unus militum lancea latus eius aperuit, et continuo exivit sanguis et aqua ― «Um dos soldados abriu-lhe o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água» (Jo 19, 34).
Sumário. Sendo o coração um dos primários órgãos da vida, claro está que tem parte principal nos afetos do homem, tanto nos bons como nos maus. Exatamente para sarar esta raiz viciada dos pecados, quis Jesus Cristo que seu Coração fosse traspassado pela lança, assim como pouco antes, para expiar a culpa de Adão em estender a mão ao fruto vedado, e para reparar os abusos da liberdade, quis que as mãos e os pés lhe fossem traspassados pelos cravos. Ó inventos admiráveis do amor de Deus! E nós não amaremos?
I. Reflete um devoto escritor que na Paixão de Jesus Cristo tudo foi excesso assombroso. Hebreus e Gentios, sacerdotes e seculares, todos juntos conspiraram para fazê-lo, como o predissera Isaías, o homem de dores e de desprezos. Causa horror a consideração do complexo de maus tratos e injúrias que fizeram Jesus sofrer em menos da metade de um dia, desde a captura até à morte. Mas quem não esperaria que ao menos depois da morte teriam deixado de ultrajá-lo? Todavia não sucedeu assim.
Refere São João, que os Judeus, para não deixarem os corpos na cruz durante o sábado de Páscoa, pediram a Pilatos que mandasse quebrar as pernas aos supliciados e que os fizessem descer da cruz (Jo 19, 31). Eis que Maria, enquanto está chorando a morte do Filho, vê alguns homens, armados de barras de ferro, que se avizinham de Jesus. À tal vista primeiramente tremeu de espanto, depois disse assim, como medita São Boaventura: Parai; ah! meu Filho já está morto! deixai de o injuriar e deixai também de me atormentar mais a mim, sua pobre Mãe! Mas, enquanto está assim falando, vê, ó Deus! um soldado que vibra com ímpeto uma lança e com ela abre o lado de Jesus: Unus militum lancea latus eius aperuit.
A esse golpe tremeu a cruz, o Coração de Jesus ficou dividido e saiu sangue e água. Não havia mais sangue além daquelas gotas restantes, que o Salvador também quis derramar, para nos fazer entender que não tinha mais sangue para nos dar. A injúria daquela lançada foi de Jesus, mas a dor foi toda de Maria Santíssima.
Minha alma, aproxima-te enternecida da cruz, une as tuas penas com as de tua querida Mãe e prostra-te assim aos pés do Senhor, afim de que corra sobre ti esse sangue divino.
II. Sendo o coração um dos primários órgãos e como que princípio da vida, claro está que ele tem parte principal nos afetos do homem, segundo o que está escrito: Do coração saem os maus pensamentos, os homicídios, os furtos e as maledicências (Mt 15, 19). Foi exatamente para sarar esta raiz viciada dos pecados, que Jesus quis ser ferido em seu sacratíssimo Coração, assim como pouco antes, para expiar a culpa de Adão em estender a mão para o fruto vedado, e para reparar os abusos da liberdade humana, quis que lhe fossem traspassadas as mãos e os pés. ― Por isso é que a Igreja não hesita em venerar a Lança e os Cravos que tiveram a ventura de ser tintos com o sangue do Senhor. No Ofício em sua honra exclama saudando-os: «A perfídia judaica escolheu-vos para instrumentos de perversidade; mas o Deus do céu vos transformou em ministros de graça. Pelo que das chagas que abristes no corpo sacrossanto de Jesus, como de outras tantas fontes, nos brotam as graças celestes»[1].
Meu irmão, unamos os nossos afetos aos de nossa boa Mãe, a Igreja. Peçamos ao Senhor perdão do abuso que nós também temos feito da liberdade. Roguemos-lhe que virando contra nós aqueles cravos e aquela lança, tire a vingança das ofensas que lhe fizemos, ferindo-nos o coração, as mãos e os pés. Os pés, para que de hoje em diante sejam impotentes em nos expor às ocasiões perigosas; as mãos, para que deixem de praticar o mal; o coração, para que, livre de todo apego desordenado às criaturas, arda sempre de amor divino: Omnisque corde e saucio profanus ardor exeat[2].
Eis o que Vos peço, ó meu Deus! «A Vós, que na fraqueza da natureza humana quisestes ser traspassado com cravos e ferido pela lança, suplico-Vos, concedei-me, que venerando na terra a memória desses cravos e dessa lança, eu vá depois alegrar-me no céu pelo glorioso triunfo de vossa vitória»[3]. Fazei-o por amor do Coração aflitíssimo de Maria. (*I 248.)
[1] Hymn. Matut.
[2] Hymn. Laud.
[3] Or. festi. curr.
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Santo Afonso Maria de Ligório. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo Primeiro: Desde o primeiro Domingo do Advento até Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 311-313.