08 de Dezembro: Festa da Imaculada Conceição

Por Santo Afonso Maria de Ligório

Tota pulchra es, amica mea, et macula non est in te – «Tu és toda formosa, amiga minha, e em ti não há mácula» (Cant. 4, 7)
Sumário: Conveio sumamente às três Pessoas divinas preservar Maria da culpa original. Conveio ao Pai, por ser ela sua Filha primogênita. Conveio ao Filho, porque queria incarnar no seio puríssimo de Maria. Conveio ao Espírito Santo, porque a tinha escolhido para sua castíssima Esposa. Façamos um ato de viva fé em tão singular privilégio de Maria, e rendamos graças à Santíssima Trindade, por haver honrado a tal ponto a nossa Mãe. Regozijemo-nos também com a Menina imaculada, e ponhamos nela toda a nossa confiança.
I. Conveio sumamente às três Pessoas divinas preservar Maria da culpa original. Conveio ao Pai, por ser Maria sua Filha primogênita. Como Jesus foi o primogênito Deus: Primogenitus omnis creaturae (Col. 1, 15), assim Maria, destinada a ser a Mãe de Jesus, foi sempre considerada como primogênita de Deus por adoção, e por isso Deus a possuiu sempre pela sua graça: Dominus possedit me in initio viarum suarum (Prov. 8, 22) – «O Senhor me possuiu no princípio dos seus caminhos». Para a honra do Filho conveio portanto, que o Pai preservasse a Mãe de toda a mácula do pecado.
Conveio ainda, porque Deus destinou esta sua Filha para esmagar a cabeça da serpente infernal, que seduzira o homem, conforme o que se lê: Ipsa conteret caput tuum (Gen. 3, 15) – «Ela te esmagará a cabeça». Como poderia, pois, permitir que fosse Maria primeiro escrava do demônio? – Mais: Maria foi destinada para advogada dos pecadores, e daí conveio que Deus a preservasse da culpa, afim de que não parecesse cúmplice do mesmo delito dos homens, pelos quais deveria interceder.
Conveio que o Filho tivesse uma Mãe imaculada. Ele mesmo a escolheu por mãe. Não se pode crer que um filho, podendo ter por mãe uma rainha, a quisesse escrava. Como então imaginar que o Verbo Eterno, podendo ter uma Mãe imaculada e sempre amiga de Deus, a quisesse manchada e algum tempo inimiga de Deus? – Ainda mais, diz Santo Agostinho: Caro Christi caro est Mariae – «A carne de Cristo é a carne de Maria». Sim, o Filho de Deus teria tido horror de se encarnar no seio de uma Santa Inês, de uma Santa Gertrudes, de uma Santa Teresa, pois estas virgens santas, antes do batismo estiveram manchadas pelo pecado, de modo que o demônio teria podido lançar-lhe ao rosto que possuía a mesma carne, que já algum tempo lhe estivera sujeita. Mas Jesus não teve horror de encarnar-se no seio de Maria (Non horruisti virginis uterum), porque Maria foi sempre pura e imaculada. – Acrescenta Santo Tomás que Maria foi preservada de toda a culpa atual, posto que venial, porque sem isso não teria sido digna Mãe de Deus. Ora, quanto menos digna teria sido se tivera sido manchada pelo pecado original, que torna a alma odiosa aos olhos de Deus?
II. Conveio ao Espírito Santo que a sua Esposa predileta ficasse imaculada. Sendo decretada a redenção dos homens, caídos no pecado, quis que esta sua Esposa fosse remida de um modo mais nobre, preservando-a de cair em pecado. Se Deus preservou da corrupção o corpo morto de Maria, quanto mais não devemos crer que preservasse a alma da Virgem, da corrupção do pecado? – Por isso o Esposo divino a chamou horto fechado e fonte selada; porque na alma bendita de Maria os inimigos nunca penetraram. Elogiou-a ainda, chamando-a toda formosa, sempre amiga e toda pura: Tota pulchra es, amica meã, et macula non est in te (Cant. 4, 7) – «És toda formosa, amiga minha, e em ti não há mancha».
Ó minha Senhora formosíssima! alegro-me de ver-vos tão querida de Deus pela vossa pureza e formosura; e dou graças a Deus por vos haver preservado de toda a culpa. Ah, minha Rainha, já que sois tão amada pelas Pessoas da Santíssima Trindade, não recuseis lançar um olhar sobre a minha alma tão manchada pelos pecados, e obter-me de Deus o perdão e a salvação eterna. Guardai-me e mudai-me. Com a vossa doçura atraístes tantos corações ao vosso amor, atraí também o meu coração, afim de que de hoje em diante não ame senão a Deus e a vós. Sabeis que em vós tenho posto todas as minhas esperanças. Minha amadíssima Mãe, não me desampareis. Assisti-me sempre com a vossa intercessão, primeiro em minha vida e depois especialmente na minha morte. + «Ó Maria, vós que entrastes no mundo sem mancha, alcançai-me de Deus que possa deixá-lo sem culpa»[1]. Fazei com que eu morra invocando-vos e amando-vos, afim de vos ir amar para sempre no paraíso.
«Ó Deus, que pela Conceição imaculada da Virgem Maria preparastes a vosso Filho digna morada, concedei-me por sua intercessão que, assim como, pela previsão da morte desse vosso Filho, a preservastes de toda a mancha de pecado, eu possa chegar a Vós com o coração puro»[2]. Fazei-o pelo amor do mesmo Jesus Cristo.
[1] Indulgência de 100 dias.
[2] Or. festi.
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Santo Afonso Maria de Ligório. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo Primeiro: Desde o Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 431-434.
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DAS FESTAS SOLENES DA VIRGEM MARIA,
E EM PRIMEIRO LUGAR DA SUA IMACULADA CONCEIÇÃO

Por São Pio X

135. Entre as festas que a Igreja celebra em honra da Virgem Maria Mãe de Deus, quais são as mais solenes?

Entre as festas que a igreja celebra em honra da Virgem Maria, as mais solenes são a Imaculada Conceição, a Natividade, a Anunciação, a Purificação e a Assunção.
136. Em que dia se celebra a festa da Imaculada Conceição?
A festa da Imaculada Conceição celebra-se no dia 8 de dezembro.
137. Por que se celebra a festa da Imaculada Conceição da Virgem Maria?
Celebra-se a festa da Imaculada Conceição da Virgem Maria porque Ela, como ensina a fé, por singular privilégio, e em vista dos merecimentos de Jesus Cristo Redentor, foi santificada pela divina graça desde o primeiro instante em que foi concebida, e assim preservada e isenta da culpa original.
138. Quando definiu a Igreja como dogma de fé que a Conceição da Virgem Maria foi Imaculada, isto é, isenta do pecado original?
No dia 8 de dezembro de 1854, o Sumo Pontífice Pio IX, por uma Bula dogmática, e com o consenso de todo o Episcopado católico, definiu solenemente, como artigo de fé, a Imaculada Conceição da Santíssima Virgem.
139. Por que Deus concedeu à Virgem Maria o privilégio da Imaculada Conceição?
Deus concedeu à Virgem Maria o privilégio da Imaculada Conceição porque convinha à santidade e à majestade de Jesus Cristo que a Virgem destinada a ser sua Mãe não fosse, nem sequer por um momento, escrava do demônio.
140. Quais são as intenções da Igreja ao celebrar a festa da Imaculada Conceição?
As intenções da Igreja, ao celebrar a festa da Imaculada Conceição, são: 1º. excitar em nós o vivo reconhecimento para com Deus, que com tal privilégio tanto exaltou a Santíssima Virgem; 2º. avivar a nossa fé na isenção, em Maria, do pecado original; 3º. fazer-nos entender quanto Deus aprecia e ama a pureza e a santidade da alma, 4º. aumentar sempre mais em nós a devoção a Maria.
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São Pio X. Terceiro Catecismo da Doutrina Cristã: Catecismo Maior de São Pio X. Edições Santo Tomás, 2005, p. 269-270.
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A DEFINIÇÃO DO DOGMA

41. Por isto, depois de na humildade e no jejum, dirigirmos sem interrupção as Nossas preces particulares, e as públicas da Igreja, a Deus Pai, por meio de seu Filho, a fim de que se dignasse de dirigir e sustentar a Nossa mente com a virtude do Espírito Santo; depois de implorarmos com gemidos o Espírito consolador; por sua inspiração, em honra da santa e indivisível Trindade, para decoro e ornamento da Virgem Mãe de Deus, para exaltação da fé católica, e para incremento da religião cristã, com a autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo, e com a Nossa, declaramos, pronunciamos e definimos:

Doctrinam, quæ tenet, beatissimam Virginem Mariam in primo instanti suæ conceptionis fuisse singulari omnipotentis Dei gratia et privilegio, intuitu meritorum Christi Jesu Salvatoris humani generis, ab omni originalis culpæ labe præservatam immunem, esse a Deo revelatam atque idcirco ab omnibus fidelibus firmiter constanterque credendam. 

A doutrina que sustenta que a beatíssima Virgem Maria, no primeiro instante da sua Conceição, por singular graça e privilégio de Deus onipotente, em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, foi preservada imune de toda mancha de pecado original, essa doutrina foi revelada por Deus, e por isto deve ser crida firme e inviolavelmente por todos os fiéis.

42. Portanto, se alguém (que Deus não permita!) deliberadamente entende de pensar diversamente de quanto por Nós foi definido, conheça e saiba que está condenado pelo seu próprio juízo, que naufragou na fé, que se separou da unidade da Igreja, e que, além disso, incorreu por si, “ipso facto”, nas penas estabelecidas pelas leis contra aquele que ousa manifestar oralmente ou por escrito, ou de qualquer outro modo externo, os erros que pensa no seu coração.

[…]

Dado em Roma, junto a S. Pedro, no ano mil e oitocentos e cinqüenta e quatro da Encarnação do Senhor, a 8 de dezembro de 1854, nono ano do Nosso Pontificado.

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Papa Pio IX. Bula Ineffabilis Deus. Disponível em São Pio V – Site Oficial.


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