O INFERNO EXISTE – Capítulo IX: Lembrança salutar do inferno

Por Pe. André Beltrami

O pensamento do inferno é fecundo de magnânimas resoluções. Quantos se santificaram meditando naquele terrível sempre e naquele terrível nunca! Quantos deixaram o pecado e se entregaram à virtude ouvindo um sermão sobre o inferno! A lembrança daquelas chamas eternas dava força aos mártires para suportarem os mais cruéis tormentos e caminharem alegres para a morte. Quem pensa no inferno suportará com paciência os males deste mundo, reputando-os insignificantes em comparação com os da eternidade.

O Padre João Eusébio Nierenberg, glória da Igreja de Espanha pela doutrina, pela santidade, pela direção esclarecida de muitas almas, teve dez anos antes de morrer tantos sofrimentos e tão excessivos que passava que por certo ele os pedira a Deus para fazer com merecimento o purgatório nesta vida. No auge da dor, todo encolhido pela contração dos nervos, dizia; – “Dói muito, mas não é fogo, não é fogo”. Crescia a tortura e aumentava a dor, “mas não era fogo”; à contração dos nervos juntava-se a gota, “mas ainda não era fogo”. Por estar de cama dez anos seguidos, dolorosas chagas cobriam-lhe o corpo aumentando o seu sofrimento, contudo ele repetia sempre: – “não é fogo, não é fogo, e acabará”. E assim se animava a suportar tudo com paciência por amor de Deus.

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Um santo solitário, assaltado por violenta tentação, temendo ser vencido, acendeu o lume e para se compenetrar vivamente do pensamento do inferno, pôs os dedos na chama e os deixou queimar, dizendo de si para consigo: – Uma vez que tu queres pecar e merecer o inferno que será o castigo de teu pecado, experimenta antes se és capaz de suportar o tormento de um fogo eterno.

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Um rico dissoluto, ainda que pelos seus inúmeros pecados vivesse em contínuo temor do inferno, todavia não tinha coragem de romper com os seus maus hábitos e de penitenciar-se. Recorreu, pois, a Santa Ludovina que então edificava o mundo com a sua paciência e lhe pediu que fizesse penitência por ele.

– De boa mente, respondeu a santa, oferecerei por vós os meus sofrimentos, com a condição, porém, que uma noite inteira vós conserveis na cama a mesa posição, sem vos moverdes de nenhum modo.

Aceitou facilmente a condição, mas passada apenas meia hora, sentiu enfado e já queria mover-se. Todavia não o fez; aumentando, porém, o mal-estar daquela posição que lhe ia parecendo insuportável, cedeu. Então uma impressão salutar se despertou no seu coração: – Se é tão molesto ficar imóvel num leito cômodo por uma noite, oh! o que não será ficar deitado num leito de fogo pelo espaço de uma eternidade? E terei ainda dúvida de me livrar desse suplício com um pouco de penitência?

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No ano 285, duas matronas cristãs, Donvina e Teonila, foram levadas ao prefeito Lisias que as intimou a renegarem a fé e abraçarem o culto dos ídolos. Elas recusaram terminantemente. Então o prefeito mandou acender o fogo e erguer um altar dos ídolos.

– Escolhei, disse; ou queimar incenso aos nossos deuses, ou ser vós mesmas queimadas nesta fogueira.

As duas mártires responderam sem hesitar:

– Nós não tememos este fogo que daqui a pouco se apaga; tememos, sim, o fogo do inferno que não se apaga nunca. Para não cair no inferno é que detestamos os vossos ídolos e adoramos a Jesus Cristo.

E assim sofreram o martírio.

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Thomas Moore, o grande chanceler da Inglaterra, foi perseguido e ameaçado de morte por ter recusado um juramento iníquo exigido pelo ímpio rei Henrique VIII. Empregaram todos os meios para o seduzir, e, não valendo as promessas, recorreu-se à violência. Foi atirado à prisão para que definhasse. Os amigos o importunavam para ceder; a esposa o conjurava a dobrar-se à vontade do rei, e conservar assim a vida para o bem deles e dos filhos.

– Quantos anos, lhe disse ele, te parece que poderia ainda viver?

– Mais de vinte, respondeu ela.

Tornou o preso, mostrando-lhe severo semblante:

– Pois, por vinte anos e tanto queres que venda uma eternidade?

Ele foi, por isso condenado à morte. Este homem generoso, assim como tinha sabido viver entre as grandezas da corte sem fausto, soube também morrer no patíbulo sem fraqueza. Antes de ser executado rezou o Miserere, e morrendo como forte ensinou a todos que é preciso salvar a alma, a todo custo, porque perdida a alma, tudo está perdido.

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Apresentou-se uma ocasião ao Papa Bento XI o embaixador de um grande soberano, pedindo em nome do rei um favor, mas de tal natureza que não se podia conceder licitamente.

– Deus sabe, respondeu o Pontífice, como desejo ardentemente contentar o vosso imperador. E tão vivo é esse desejo, que se tivesse duas almas, sacrificaria de boamente uma para lhe conceder o favor que pede. Mas, dizei ao vosso soberano que tanto só uma alma, e absolutamente não posso, não devo, não quero perdê-la para agradar a ele.

Belas palavras, que todo cristão deveria ter sempre presentes à memória e pronta na boca para semelhantes circunstâncias!

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É célebre a invenção usada por um rei piíssimo para fazer pensar mais retamente a um cavalheiro de má vida. Convidou-o para uma soberba caçada. Imediatamente depois da caça um jogo de muitas horas. Acabando o jogo, convite para assistir a uma representação. O cortesão estava cansado; mas era convite do rei e precisava aceitar. Depois do teatro que durou quatro horas, uma embaixada anunciava uma sessão de músicos estrangeiros, e pedia ao cavalheiro quisesse honrá-la com a sua presença. O pobre homem murmurou: – Parece que o rei quer matar-me com tanta diversão; se vier mais um convite morro de verdade.

E o quinto convite veio mesmo; no salão da corte havia um baile e aí também o rei o esperava.

– Pobre de mim! ainda um baile? não posso mais ficar em pé!

E excusou-se com o rei:

– A bondade de Vossa Majestade me confunde. Mas, por amor de Deus, um pouco de descanso; dezoito horas ininterruptas de diversão…

– E vos parece muito? replicou ou rei. Não podeis então, agüentar dezoito horas de divertimento e agüentareis a longa eternidade de contínuos sofrimentos não variados, para os quais vos leva vossa vida?

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O Padre Cattaneo narra um fato para nos fazer compreender o medo que devemos ter de nossa sorte futura. E todavia de nós depende a escolha!

Maomé II, senhor dos turcos, aquele que anexou mais de duzentas cidades ao grande império de Constantinopla e invadiria a Itália se a morte lhe não frustrasse a realização dos planos, foi homem crudelíssimo e sanguinário; de uma feita, achando falta de um fruto no seu jardim, mandou reunir os criados para saber qual tinha sido o delinqüente, e porque nenhum deles ousou confessar aquele pequeno furto, mandou abrir o ventre de todos para saber onde estava o corpo de delito; e foi providência de Deus ter-se encontrado o fruto depois de mortos três servos; senão, todos o outros seriam sacrificados.

Ora, este bárbaro rei fez um parque de caça reservado para si, num lugar onde havia abundância de animais e aves; decretou pena de morte a quem ousasse caçar nesse parque.

– Para suceder no reino basta um; portanto, um se sacrifique para escarnamento de todos e o outro se conserve para segurança da coroa. Mas qual dos dois merece graça? O mais velho? Não! O menor? Não! Tirem a sorte.

Tirou-se a sorte fatal com um majestoso e tremendo aparato. Na grande sala da corte, achava-se o rei, sentado no trono, rodeado pelos vizires, agás e pachás; diante do trono duas mesinhas, uma fúnebre com o baraço, a outra coberta com uma rica toalha, onde se viam o turbante, o colar e a espada. Um taboeiro com os dados; aí foram conduzidos os príncipes para tirarem a sorte: quem obtivesse o menor ponto cingiria a espada e colar; quem obtivesse maior, daria o pescoço ao baraço.

Diante daquele aparato os dois jovens desmaiaram; depois, com o fritilo na mão, dirigiam tristes olhares para a corda e para a coroa; o coração de ambos batia tão forte que levantava as vestes sobre o peito, com afanosos e profundos suspiros, com ânsias de moribundos, por causa da escolha fatídica – a corda ou a coroa – que dependia de um ponto de jogo e do lançar de um dado.

Quem sente compaixão pela situação crítica em que se acharam esses pobres príncipes, dirija a compaixão sobre si mesmo, e diga: – “Na hora da morte, na mesma ou em pior situação me acharei eu. Duas infinitas eternidades terei diante de mim; numa verei cetros, coroas, riquezas, alegrias, prosperidades, tudo para sempre; noutra verei grilhões, infâmias, morte, e não passageiros, mas que duram sempre. E o que caberá em sorte? De nós depende inteiramente a escolha: se vivermos bem teremos eternidade feliz, se ao contrário, levamos vida má, caber-nos-á o fogo eterno, e desespero eterno e todas as outras penas de que já falamos.


BELTRAMI, André. O Inferno Existe: Provas e Exemplos. Niterói, 1945.


O INFERNO EXISTE – Prefácio do Autor

O INFERNO EXISTE – Capítulo II: A razão humana confirma a existência do inferno
O INFERNO EXISTE – Capítulo III: Testemunhas de Além-túmulo
O INFERNO EXISTE – Capítulo IV: Horrendos suplícios do inferno
O INFERNO EXISTE – Capítulo V: Eu não creio em nada
O INFERNO EXISTE – Capítulo VI: Não voltou ninguém do outro mundo para nos dizer que existe a eternidade
O INFERNO EXISTE – Capítulo VII: A vida futura é um programa insolúvel, um programa talvez invencível
O INFERNO EXISTE – Capítulo VIII: Se eu for para o inferno não estarei só
O INFERNO EXISTE – Capítulo IX: Lembrança salutar do inferno
O INFERNO EXISTE – Capítulo X: Três amplos caminhos que conduzem ao inferno: a desonestidade, o sacrilégio e a blasfêmia
O INFERNO EXISTE – Capítulo XI: Outras provas da existência do demônio e do inferno
O INFERNO EXISTE – Capítulo XII: O inferno é invenção dos padres

Comentários ( 2 )

  • Oi!
    Que mártires, os que morreram inocentemente por defenderem a Bíblia e somente ela, assassinados na fogueira ou na forca pelos padres e prelados da igreja romana?
    Essas vitmas tinham em mente a salvação em Cristo, e isso as tornava fortes, e não o medo de chamas eternas!

  • Oi, Eduardo!

    Olha, você está interpretando mal o texto que leu. A questão de que “a lembrança das chamas do inferno dava força aos mártires” não é no sentido que eles temiam mais o inferno do que amavam Cristo, ao contrário, por refletirem nas bem-aventuranças eternas e por saberem que nenhum suplício terreno é superior ao suplício eterno, é que eles, com bravura, agüentavam as piores dores por amor a Cristo. Veja o que diz essa frase: “Quem pensa no inferno suportará com paciência os males deste mundo, reputando-os insignificantes em comparação com os da eternidade”.

    A reflexão do inferno serve para as pessoas que não tem temor nenhum de Deus, pois pelo menos pensando nos suplícios eternos, quem sabe comecem a rever sua vida de pecados e se convertam.

    Os mártires que morreram, morreram por amor a Cristo. Morreram proclamando publicamente seu amor a Jesus Cristo e sua fidelidade a Deus e à Santa Igreja, e para darem testemunho da Verdade ensinada por Nosso Senhor. A Igreja Católica possui inúmeros mártires que deram a vida e derramaram o sangue por Nosso Senhor Jesus Cristo.

    A Inquisição teve seu papel para salvaguardar a Fé. Os hereges que não se arrependiam, depois de várias tentativas para que se emendassem, eram condenados. Acaso quando um membro se encontra gangrenado, não lhe amputam para salvar a saúde do corpo e a vida da pessoa? Pois bem, a Igreja é formada por inúmeros membros e se um deles apodrece e continuar no corpo, poderá prejudicar aos demais.

    Segundo Santo Tomás de Aquino «do lado da Igreja, ao contrário, ela usa de misericórdia em vista da conversão dos que erram. Por isso, ela não condena imediatamente, mas só “depois da primeira e segunda advertência” [Tt 3, 10-11], como ensina o Apóstolo. Se, porém, depois disso, o herege permanece ainda pertinaz, a Igreja, não esperando mais que ele se converta, provê à salvação dos outros, separando-o dela por uma sentença de excomunhão; e ulteriormente ela o abandona ao juízo secular para que seja excluído do mundo pela morte. Com efeito, Jerônimo diz isso que se encontra nas Decretais: “as carnes pútridas devem ser cortadas e a ovelha sarnenta deve ser afastada do redil, afim de que toda a casa, a massa, o corpo e as ovelhas não ardam, corrompam-se, apodreçam e morram[…]”» (Suma Teológica, II-II, q.11, a.3)

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