A Guerra Secular Contra o Sobrenatural (Parte II) – Os Medos

Por Dra. Alice von Hildebrand
Tradução livre de Fernanda Pudo de Lorimier
Revisão de Melissa Bergonso

Medo da humilhação

Buscar a vida Sobrenatural é muito mais atraente do que levar a cruz. Há muita gente disposta a seguir Cristo ao Monte Tabor, porém existem poucas pessoas dispostas a segui-lo no calvário. No entanto, o calvário é um passo que temos que percorrer para chegar à vida eterna. Quando Cristo deu essa mensagem, algumas pessoas ficaram tão tomadas e inebriadas de Deus que se tornaram cristãs, e é dito explicitamente em Atos dos Apóstolos “Quando eles eram ridicularizados, chicoteados e torturados, alegravam-se, porque era um privilégio para eles sofrerem com Cristo”. Esse foi o início do cristianismo e aquele período foi um momento muito glorioso, porque as pessoas, conscientes do dom sobrenatural, desprezaram todas as vantagens humanas, segurança, dinheiro, honra. Abraçaram o sofrimento com alegria, porque Cristo sofreu e morreu por nós.
Infelizmente, as pessoas descobriram que é desagradável sofrer e que, para entrar no Céu, não só precisamos aceitar o sofrimento, mas também a humilhação. Afinal, Cristo foi humilhado da pior maneira possível. Temos que aceitar a humilhação, mas se há algo que realmente tememos é sermos humilhados. Temos medo do sofrimento, mas provavelmente temos mais medo de sermos humilhados.

Medo da verdade

Assim, a Igreja tornou-se reconhecida no século IV e foi crescendo até o grande período chamado de Idade Média. Mesmo durante a Idade Média, nem todas as pessoas eram santas, mas havia uma abundância de santos e há duas coisas sobre a Idade Média que eu gostaria de enfatizar.

A primeira é que eles sabiam que a maior conquista que um ser humano pode aspirar é a santidade, nascer de novo para se tornar uma nova criatura. E a segunda era que quando eles pecavam, eles eram pecadores.

Bem, hoje, a peculiaridade do homem moderno é que ele peca, mas nega que o pecado existe. Há uma diferença bastante marcante entre esses dois casos. Enquanto você sabe que é um pecador, há esperança, mas no momento em que você esquece que é um pecador, sente-se perfeitamente confortável pecando e tenta justificar o seu próprio pecado, as coisas começarão a ser um pouco perigosas.

Mesmo o sobrenatural sendo o maior dom que o homem poderia ter recebido, por algum motivo, há algo na natureza decaída do homem que não gosta da mensagem do sobrenatural.

Por exemplo, no Evangelho de São Marcos (Capítulo 5) no território dos Gerasenos, Cristo enviou uma legião de espíritos imundos que um homem possuía para uma grande manada de porcos, e a manada, totalizando cerca de dois mil, precipitou-se no mar e afogou-se. Os pastores, apavorados, fugiram correndo para a cidade, espalhando a notícia por todo o campo. A vizinhança pediu para Jesus se afastar daquele território. Por que eles queriam que Jesus fosse embora? Eles haviam perdido muito. Dois mil suínos custam muito dinheiro. No entanto, uma explicação muito mais profunda, sugerida por Kierkegaard, é válida também. Os Gerasenos não agüentavam o confronto entre si mesmos e a santidade de Cristo. Em outras palavras, eles estavam com medo da verdade, e eu afirmo que a maioria dos homens, se não todos os homens, têm medo da verdade. Por quê? Porque a partir do momento em que eu sei, em que eu conheço algo, eu tenho que mudar. Eu sei que eu tenho que morrer para mim mesmo para nascer de novo.

Medo da conversão

O Cristianismo fez algo totalmente revolucionário. Cristo não disse “Eu tenho a verdade”, ele disse: “Eu sou a Verdade”. Nem Moisés, Buda ou Mohammed disseram isso. Somente Cristo afirma que Ele é a Verdade, em letra maiúscula “V”. Agora, no momento em que nos confrontamos com a verdade, de repente descobrimos todas as mentiras que estão em nós, e aí há duas possibilidades. Ou você se ajoelha e adora a Cristo e reconhece-O como Deus, ou você foge e diz “afaste-se de nós, podemos fazer sem você”.

Mais uma vez vamos voltar para o Novo Testamento. Quando Cristo está prestes a ser condenado, e ele diz: “Eu vim para dar testemunho da verdade”, o que Pilatos disse? “Qual é a verdade?” E foge. Ele não espera por uma resposta que Cristo poderia ter dado à ele. Ele não está interessado. Ele apenas levanta uma pergunta retórica “Qual é a verdade?” E sai.

Ou Felix, o governador Romano. Quando São Paulo estava à espera de ser enviado para Roma, o governador Félix ia vê-lo quase diariamente, porque ele gostava da inteligência e da sabedoria de Paulo. Essas visitas continuaram por um tempo, até que um dia São Paulo teve a infeliz idéia de mencionar a castidade. No momento em que ele falou a palavra “castidade”, Felix se levantou, saiu e nunca mais voltou. Consegue adivinhar por quê? Eu acredito que você pode encontrar a resposta por si mesmo.

Uma coisa surpreendente que vamos descobrir é que, teoricamente, todas as nossas universidades aceitam de alguma forma a busca da verdade, mas na verdade, quando se trata de aceitar uma verdade concreta que me desafia a mudar de vida, dizemos: “afaste-se de nós, nós não queremos você”.

Medo da culpa

Suponhamos que eu seja  um Frei Beneditino, de acordo com a Regra de São Bento, um sinal de que você tem uma vocação Beneditina é amar a humilhação. Por quê? Porque Cristo foi humilhado. Nós morremos para a nossa natureza decaída e renascemos em Cristo, em outras palavras, à Santidade. No momento em que você percebe que isso vai trazer sofrimento e cruz, você vai dizer para si mesmo “Pode haver maneiras de escapar”.  Além do sofrimento e da humilhação, coisas das quais temos pavor, há em todos nós algo do qual temos medo e desespero: o “sentimento de culpa”. Este é um sentimento que o homem moderno acredita ter conseguido eliminar.

Quantos dos meus alunos, quando eu estava dando curso sobre ética, levantariam a mão furiosamente e diria – “é claro que você está tentando nos dar uma má consciência, mas eu não sou responsável pelo que fiz; é a minha educação, os meus genes ou a sociedade em que vivo, mas eu não sou responsável”. Eu sou – Inocente. Certamente, muitos psiquiatras irão falar com você sobre o sentimento de culpa e dizer “você não é culpado, você é tão bom como qualquer outra pessoa”. O evangelho da Nova Era é: se ame, goste de você, você está bem, você está OK e eu sou OK e todos somos OK  e depois, nós temos um mundo que é muito feliz.

Agora, suponha que no fundo de minha alma eu me recuso a viver de acordo com as exigências feitas pela Igreja, pois a Igreja faz reivindicações para nós, a Igreja desafia-nos a morrer para nós mesmos para nos tornarmos novas criaturas. A Igreja nos convida a recebermos os sacramentos em estado de graça e se não conseguimos fazer isso, convida-nos para irmos nos confessar e reconhecer a nossa culpa e, em seguida, recebemos o presente imenso da absolvição. “Vá em paz, os teus pecados estão perdoados”. Não se sentir culpado, e sem a possibilidade de acreditar em absolvição, é terrível.

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